BPN: “primeiro ministro confirma as motivações políticas deste negócio”

03 de August 2012 - 3:45

Passos Coelho intercedeu junto do governo de Angola para que este levasse o presidente do BIC a retomar as negociações para a compra do BPN. Deputado do Bloco João Semedo frisa que “o governo vendeu o BPN nas condições que o BIC impôs” e que “quem ficou a perder foi o estado português e os contribuintes”.

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Foto de Paulete Matos.

Nas respostas remetidas esta quinta feira ao conjunto de questões que foram colocadas pelos deputados que compõem a Comissão Parlamentar de Inquérito ao processo de nacionalização, gestão e alienação do Banco Português de Negócios, S.A., Pedro Passos Coelho admitiu ter solicitado, em novembro de 2011, a intervenção do Governo de Angola para que este convencesse o presidente do BIC retomar as negociações para a compra do BPN.

Na reunião de 23 de novembro, realizada a pedido do primeiro ministro português, Mira Amaral, representante do BIC, terá informado Pedro Passos Coelho de que os acionistas do banco estariam a desinteressar-se pela compra do BPN, alegadamente devido à demora do processo negocial.

Perante esta informação, o primeiro ministro terá decidido abordar o ministro de Estado e chefe da Casa Civil angolana, Carlos Feijó, para que este intercedesse junto do presidente do BIC Angola, Fernando Teles, de forma a que o mesmo regressasse a Lisboa e retomasse as negociações.

Em resposta ao Bloco de Esquerda, Passos Coelho adiantou que “pouco tempo depois” o ministro angolano informou da “disponibilidade do investidor para se deslocar com rapidez a Lisboa para conversar diretamente com o Governo português”, o que acabou por acontecer a 28 de novembro.

“Primeiro ministro confirma as motivações políticas deste negócio”

Para o deputado bloquista João Semedo, as respostas de Pedro Passos Coelho facultam importantes informações que ajudam a “compreender como foi possível o governo português vender o BPN por apenas 40 milhões, uma venda a preço de saldo, num banco onde o estado injetou mais de cinco mil milhões de euros”.

O dirigente do Bloco de Esquerda destaca dois pontos fundamentais:

“1º. Pela forma como conduziu a reprivatização do BPN, nomeadamente o ter excluído liminarmente o Montepio Geral do processo, o governo português ficou refém das decisões e interesses da administração do Banco BIC, sem qualquer outra alternativa que não fosse a liquidação do BPN. O primeiro ministro confirma que o governo não tinha um plano B para o caso das negociações fracassarem. O governo vendeu o BPN nas condições que o BIC impôs. O comprador fez um bom negócio, o vendedor um mau negócio. Quem ficou a perder foi o estado português e os contribuintes.

2º. O primeiro ministro confirma as motivações políticas deste negócio ao reconhecer ter solicitado os bons ofícios das autoridades angolanas para que a venda se concretizasse, perante um cenário de rotura negocial e a ausência de um plano B. As respostas de Pedro Passos Coelho são muito claras a esse respeito: não fosse o governo angolano ter vindo em socorro do governo português, pressionando a administração do BIC, e o negócio continuaria por fazer. Os interesses políticos dos governos angolano e português garantiram a concretização do negócio”.

João Semedo refere, por último, que “a resposta de Pedro Passos Coelho, relativamente ao conteúdo das reuniões por ele realizadas com administradores do BIC, não coincide exatamente com alguns depoimentos registados pela Comissão de Inquérito, nomeadamente quanto ao que foi discutido e acordado nessas reuniões. O primeiro ministro reduz o saldo dessas reuniões à “normalização do clima negocial”, recusando ter aceite qualquer exigência por parte do BIC. Face à evolução verificada no processo e à conclusão do negócio com o BIC, as palavras de Pedro Passos Coelho são muito pouco convincentes”.