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Cantando e rindo

O momento das escolhas decisivas na Europa está aí. Ou a tempestade perfeita ou a mudança de rumo.

Esta foi a semana em que as agências de rating deixaram de ter como alvo os PIGS e passaram a ter na mira da sua arma letal os países até agora imaculados e a própria União Europeia. Ao baixar as expectativas, de "estáveis" para "negativas", relativamente a dezassete bancos alemães, à própria dívida soberana da Alemanha, da Holanda e do Luxemburgo e ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, a Moody's pôs a nu a irresponsabilidade suicida que tomou conta dos Governos europeus. O preço a pagar pelos até agora triunfadores da crise - a banca e o sector exportador alemães, acima de todos - pelo seu apego à ilusão de que os juros negativos que hoje premeiam as suas emissões de dívida permanecerão estáveis será o seu estrepitoso afundamento. Que está mais próximo a cada dia que passa. Esta foi a semana em que, pela voz insuspeita de uma agência de rating, ficou provado o que já o estava, exceto para os fundamentalistas da irresponsabilidade: não há cordão sanitário que salve os ganhadores de serem arrastados para o abismo. E sê-lo-ão porque a sua ganância os impediu de ver que, rodeados de recessão, eles próprios se condenam à recessão.

Depois de terem alimentado a ilusão de que ganhariam ilimitadamente com uma concessão de crédito fácil de que se fez a bolha imobiliária espanhola, os bancos alemães passaram à ilusão de que os cem mil milhões de euros de resgate dos bancos espanhóis lhes trariam a tranquilidade dos vencedores. Peter Böfinger, assessor económico do Governo alemão, deu transparência à estratégia: "Esta ajuda não é a estes países, mas, sim, aos nossos próprios bancos, que detêm um grande parcela da dívida privada daqueles países." Mas a gula dos mercados - a que um atónito ministro da Economia de Madrid chamou, com uma candura comovente, "irracionalidade incompreensível" - e a submissão a ela revelada por Rajoy e seus pares - lestos a fazerem os sacrifícios do costume (subida de impostos, corte de salários, etc.) para "reconquistar a confiança dos mercados" - encarregaram-se de esvaziar à nascença essa quimera de um resgate confinado aos bancos. Agora a Espanha entrou irreversivelmente na espiral de destruição da economia e multiplicou por três a dimensão das economias europeias reféns desses programas de ajustamento destruidor.

O momento das escolhas decisivas na Europa está aí. Ou a tempestade perfeita ou a mudança de rumo. Os rumores de que o FMI põe agora termo ao financiamento da Grécia, condenando-a a declarar falência em setembro e a abandonar a Zona Euro, indicia que a escolha será, uma vez mais, errada. Com a agravante de ser muito provavelmente a última. Deitar fora a Grécia agora (e depois, não cabem dúvidas, Portugal) mostra duas coisas terríveis. Em primeiro lugar, o cinismo e a leviandade que sempre marcaram a imposição de sacrifícios imensos ao povo grego. Cortes atrás de cortes, degradação permanente das vidas, humilhação nacional - tudo isto para nada a não ser para transferir os créditos para outrem e para saquear riquezas apetecidas daquele país. Em segundo lugar, escolher a falência da Grécia e a sua saída do euro mostra que os até agora triunfadores da crise estão dispostos a destruir a União Europeia peça por peça até ficarem sós, ignorando que esse é afinal o caminho da sua própria perdição.

É em nome da Europa que se impõe outra escolha. Um BCE que seja um verdadeiro banco central, financiando os Estados a baixo custo e não os especuladores do sistema financeiro, e uma união fiscal a sério e não um diktat ilegalizador do Estado social são pilares imprescindíveis dessa escolha. Ela exige lucidez e coragem. E não obediência bem comportadinha.

Sobre o/a autor(a)

Professor Universitário. Dirigente do Bloco de Esquerda
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