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Rebeldes sírios aproximam-se do maior troféu

Agora foi na jugular. O cunhado do presidente, o ministro da Defesa, uma bomba de destruição massiva colocada perto, ou talvez dentro dos quartéis militares encabeçados pelo irmão do presidente. Os assassinatos levam tempo, mas este foi de escala épica, para se colocar ao mesmo nível do banho de sangue que ocorre em toda a Síria. Por Robert Fisk
Uma bomba colocada perto, ou talvez dentro, dos quartéis militares encabeçados pelo irmão do Presidente da Síria matou o ministro da Defesa e o cunhado de Bashar al-Assad

A irmã do presidente Bashar Assad, Bushra, um dos pilares do partido Baas, perdeu o seu esposo numa potente explosão, muito perto do centro de Damasco. Com razão, os russos falam da batalha decisiva. Não será uma recreação de Stalingrado, mas os tentáculos da rebelião chegaram perto do coração. E, a partir daí, há matanças por vir. Por que outra razão teriam fugido nesta quarta-feira milhares de cidadãos sírios para o acampamento de refugiados palestinos de Yarmouk, a fim de buscar a proteção dos cidadãos mais traídos do mundo árabe?

Existe suficiente ódio para continuar este selvagem ataque contra o governo sírio. Há oito meses, durante uma manifestação de massa a favor do regime, no distrito de Rawda, passei caminhando junto ao quartel de informação e segurança que foi destruído nesta quarta.

Naquele momento, um amigo sírio o olhou com desolação. A tortura ocorre sob a terra, as pessoas nem sequer sabem o que se passa ali, disse-me. Porém, qualquer um que tivesse saído dali mataria com prazer aqueles que o atormentaram, em especial o chefe dos torturadores.

A fúria do povo atingirá de bom grado um ou dois dos escolhidos do governo. Foi um gesto típico o facto de que, no seu desespero por preencher o vazio deixado pelos assassinatos de quarta, o regime designasse o anódino Fahd Jassim Frayj para ocupar a vaga no Ministério da Defesa; ele é um homem originário de Hama, o centro das maiores rebeliões contra os governantes sírios.

Nós, ocidentais, temos o hábito de ver sempre o Médio Oriente através da nossa própria cartografia. O Médio Oriente está a leste, não é? Mas girem o mapa e dar-se-ão conta da proximidade da Síria dos chechenos muçulmanos até hoje em busca da sua redenção. Não é de se estranhar que Moscovo tema tanto uma rebelião na Síria.

O velho Hafez Assad, pai de Bashar, costumava preocupar-se, nos seus últimos anos, com que uma revolta em seu país pudesse tomar a forma de um terrível conflito ao qual ele se mantinha atento diariamente pela televisão: o da rotura da Jugoslávia laica, cujas divisões sectárias eram surpreendentemente similares às que vive hoje a Síria. Curiosamente, apesar das degolações, das matanças de civis pelas mãos de milícias e dos assassinatos de crianças (que parecem um paralelo da guerra que nos anos 90 castigou o país que se pôs ao lado de Damasco durante a guerra da Argélia), as impactantes cenas que se veem atualmente na Síria começam a refletir agora a barbárie da Bósnia, Croácia e Sérvia.

O que Bashar pode fazer agora? Outro amigo sírio fez-me uma pergunta interessante por estes dias: Suponhamos que o presidente xiita alauíta Bashar decida fugir, disse-me. Assim, seria levado ao aeroporto por um coronel alauíta. Você acha que este o deixaria partir? Duvido.

Então, duas tristes previsões. Sim, Bashar poderá aferrar-se ao poder mais tempo do que acreditamos. Não se irá embora, o seu irmão Maher, que encabeça a chamada Quarta Brigada, talvez seja um caso diferente. Mas do palácio presidencial podem escutar-se os tanques e tiroteios que têm lugar numa das cidades habitadas mais antigas do mundo; estes são dias sem precedentes. Inclusive, a televisão síria viu-se obrigada várias vezes a dizer a verdade nesta quarta.

O veredicto? Bashar al Assad vai sair, porém, ainda está lá.

Artigo de Robert Fisk publicado no jornal britânico The Independent em 19 de julho de 2012. Tradução para o espanhol de Gabriela Fonseca, La Jornada, e para o português de Gabriel Brito, Correio da Cidadania.

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista inglês, correspondente do jornal “The Independent” no Médio Oriente. Vive em Beirute, há mais de 30 anos
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