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Da tragédia à farsa (em versão pimba)

Para encobrir o logro de apresentar como “manutenção dos apoios” para o próximo ano aquilo que na verdade representa um corte de pelo menos mais 22% no financiamento à criação artística, Francisco José Viegas e a DGArtes adiam até ao limite a abertura dos novos concursos e inventam expedientes para atirar areia aos olhos da opinião pública.

Dizia Marx, a propósito da noção hegeliana de repetição histórica, que os acontecimentos, as personagens e as formas de governo começam como tragédia e terminam como farsa. Zizek haveria de retomar o conceito, a propósito do período entre os ataques do 11 de Setembro e o colapso financeiro de 2008.

A metáfora é roubada ao teatro e é justo que as artes reivindiquem as suas próprias caminhadas neste percurso. Em Portugal, não têm faltado responsáveis políticos empenhados em concretizá-las. No passado dia 13 de Julho, foi oficialmente inaugurada a época da farsa na política cultural: a Direção-Geral das Artes anunciou a abertura de uma discussão pública, avisando de antemão que ela não servirá para nada, porque os procedimentos sobre os quais ela incide já estão definidos e não serão alterados.

Comecemos pelo início. Pela primeira vez desde que há contratos de financiamento público à criação artística, dois responsáveis do Governo Sócrates – a Ministra Gabriela Canavilhas e o Diretor-Geral das Artes João Aidos – decidiram, em 2010, efetuar cortes sobre verbas contratualizadas, quando as estruturas apoiadas estavam a meio da execução das suas atividades. Aberto o precedente e destruída a base de confiança mínima que tem de existir entre as duas partes em qualquer acordo, o Governo que lhe sucedeu não teve sequer de se justificar para aplicar a mesma receita, em doses reforçadas, dois anos depois.

Os resultados estão à vista: companhias de teatro com o apoio público reduzido em 60%, centenas de pessoas despedidas, milhares de pessoas desempregadas ou a trabalhar precariamente, desestruturação completa de um já frágil sector profissional, projetos com 20 e 30 anos de atividade em risco de desaparecer, teatros novos prestes a fechar portas ou transformados em salões de festas – eis a tragédia de um país em que a cultura se mantém como um luxo descartável e os artistas e os seus públicos são tratados como indigentes.

Chegámos agora à fase da farsa. Para encobrir o logro de apresentar como “manutenção dos apoios” para o próximo ano aquilo que na verdade representa um corte de pelo menos mais 22% no financiamento à criação artística, Francisco José Viegas e a DGArtes adiam até ao limite a abertura dos novos concursos e inventam expedientes para atirar areia aos olhos da opinião pública. O último desses expedientes, anunciado no dia 13 de Julho, é o agendamento de um período “para recolha de contributos” entre a classe artística sobre o modelo dos apoios. O mesmo modelo que o Governo afirma que não vai alterar. Entretanto, o tempo avança, as estruturas definham e ninguém sabe com o que pode contar a partir de Janeiro.

Marx era um otimista. Via até um sentido neste caminho: última fase de cada processo histórico, a farsa acontece como maneira de enterrar uma forma de passado, para que a humanidade se separe, “feliz”, do seu passado.

Mas sabemos, como Marx, Zizek e tantos outros, que nada disto é natural e que os atores de cada uma destas comédias resistem enquanto podem nos palcos que lhes são oferecidos. Cabe-nos a nós e ao público dizer-lhes que já chega. A farsa que nos oferecem é tão fraquinha que mais vale, por uma vez que seja, falarmos a sério.

Sobre o/a autor(a)

Produtor cultural, Cidadãos por Coimbra
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