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Geração MBA

Vindos diretamente das business schools e similares que surgiram nos quatro cantos do país, muitos membros desta geração ocupam depois cargos de gestão pública. A missão de um organismo transforma-se então no seu negócio, os cidadãos nos seus clientes e os seus projetos e iniciativas nos seus produtos.

Antigamente, quem queria ter autoridade no que dizia sobre a coisa pública tirava um curso de Direito. Mudam-se os tempos, mudam-se as universidades. Hoje tira-se um MBA e fica-se a conhecer o segredo da vida e arredores. Com uma análise swot, um balance scorecard e umas pitadinhas de Milton Friedman ou, para os mais eruditos, de Stuart Mill, logo temos a solução para todos os males do mundo.

E no que à gestão da coisa pública diz respeito, para quê essa história da ideologia e das ideias políticas? Para a geração MBA tudo se resume à oferta e procura, à racionalização de gastos e ao deixar o mercado funcionar sem essa coisa do Estado a atrapalhar. E, claro, quanto menos assistencialismo melhor. Só assim se consegue uma sociedade meritocrática e com espaço para a liberdade individual. Uma sociedade onde a crise é uma oportunidade e onde cada cidadão é um empreendedor. E não tentem dizer a um membro desta geração que estas suas ideias são em si mesmo políticas. Que disparate! Ciência e racionalidade pura, responderão.

Vindos diretamente das business schoolse similares que surgiram nos quatro cantos do país, muitos membros desta geração ocupam depois cargos de gestão pública. A missão de um organismo transforma-se então no seu negócio, os cidadãos nos seus clientes e os seus projetos e iniciativas nos seus produtos. Dissemina-se uma cultura de gestão privada como grande solução para todos os males da preguiçosa e insolente Administração Pública. Com outsourcings, downsizings e despedings até, adapta-se a máquina orçamental à modernidade. E se os sindicatos, essas figuras do século passado, vêm reclamar contra os cortes nos direitos dos trabalhadores, clarifica-se que estão a ser feitos ajustamentos com vista a uma justa harmonização. Por sua vez, se um jornalista perguntar se é intenção do Estado acabar com a sua presença no setor X ou Y, nega-se respondendo que está em curso uma mera operação de abertura à sociedade civil.

É sempre interessante ver a forma como os membros deste clã encaram a sua missão pública. O objetivo é simples: trazer a lógica da gestão privada para o universo público. Uma solução milagrosa para colocar todo o edifício público no caminho certo. Com tabelas excel e gantt charts, conseguem ver o que o comum funcionário público nunca alcançaria.

Só é pena que os Paulos Macedos e Vítores Gaspares deste país se esqueçam de trazer para o universo público os mecanismos de responsabilização draconiana que vigoram no privado. Ou seja, em caso de resultados negativos, caso sejam identificados os mínimos indícios de incompetência, o gestor no privado sabe que a porta da rua é o caminho. No caso dos gestores da geração MBA no público, este tipo de mecanismos ficam à porta do seu gabinete, dando lugar à mera confiança política. A mesma política que, embora negada noutras esferas, quando aplicada a si transforma-se imediatamente em competência e vasta experiência na área.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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