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Onde as metemos? Falar e não deixar de fora

A esquerda tem um discurso próprio e para o construir tem de escolher as palavras certas. Uma esquerda feminista só pode pensar-se não usando o masculino universal ou falso neutro, como também é conhecido.

Todas as ativistas sabem da importância desta luta.

As dirigentes locais e as deputadas do distrito manifestaram-se firmes na intenção de apoiar as reivindicações daquela classe profissional, o Sindicato das Professoras marcou a sua presença também.

No exame nacional estavam inscritas 58 mil alunas.

A cantora de rock levou ao rubro todas as suas fãs que enchiam o pavilhão.

Nota-se não nota? Ora querem lá ver que agora dizem tudo no feminino?

E se fosse ao contrário? Notava-se? Tolerava-se? Certamente alguém se apressava a corrigir.

Se a língua portuguesa tem dois géneros gramaticais, porque se tem de usar o masculino para representar grupos de pessoas? Pois é, realmente não representa. E é mesmo muito triste quando usado para referir grupos de pessoas que são maioritariamente femininos...

Mudam-se os tempos mudam-se as palavras

Cresci a ouvir chamar «judeu» a quem magoava intencionalmente, «judiar» era um verbo, existia. «Pareces uma menina!» era um grande insulto para quem era rapaz. Algumas destas expressões hoje já se ouvem raramente, foi-se ganhando consciência de que mais do que atacar quem se queria atacar, estava-se sim a discriminar e a tratar mal quem se usava nessas comparações (embora às vezes ainda se ouça «a Espanha não é o Uganda» e outras barbaridades que tais).

As palavras são ferramentas de pensar

As palavras têm efeitos sobre o resultado final das nossas falas.

Para esticar uma massa não uso uma colher de pau, para espetar um prego não uso uma chave-de-parafusos. Também a escolha das palavras se deveria fazer com cuidado, atendendo ao que queremos efetivamente dizer, nomeando, e não ocultando, quem queremos nomear.

A linguagem por vezes atraiçoa-nos, é certo, é tão natural que nem a questionamos. Falamos como aprendemos, sim, mas também aprendemos a falar, todos os dias, novas palavras, novos modos de discurso.

Indo mais fundo até podemos dizer que a linguagem realmente atraiçoa, mas muito mais porque revela a verdadeira maneira como pensamos, cá por dentro, às vezes em contraste com o nosso discurso, cá por fora. Porque a lógica patriarcal domina de tal forma que parece natural aquilo que é apenas reflexo da opressão de muitos séculos.

Mudar o mundo sem mudar as palavras com que o dizemos?

A esquerda tem um discurso próprio e para o construir tem de escolher as palavras certas.

Porque as palavras podem incluir ou excluir, podem nomear ou tornar invisível, criam barreiras, colocam biombos. O género gramatical não pode ocultar o género social.

Uma esquerda feminista só pode pensar-se não usando o masculino universal ou falso neutro, como também é conhecido. À esquerda temos mulheres nas nossas lutas, temos mulheres no nosso pensamento teórico. Passámos a ter mulheres nas nossas imagens. Como podemos não as ter nas nossas palavras?

Escrever de forma inclusiva requer efetivamente um esforço adicional, não tanto porque falamos de forma errada, mas muito mais porque continuamos a pensar com as velhas ferramentas. Esse pensar, sim, é que custa pôr de lado. As velhas palavras escorregam-nos da boca a cada passo. E só deixarão de o fazer quando fizermos um esforço consciente para as substituir.

Podemos usar os dois géneros gramaticais explicitamente, se necessário - professoras e professores. Podemos escrever doutra maneira - as pessoas na assistência - evitando o seu uso explícito.

E, reciprocamente, escrevendo de forma inclusiva também passamos a pensar de forma mais inclusiva e aí residirá a grande diferença.

A esquerda tem um referencial de séculos de muitas lutas. É desse passado que nos orgulhamos e é ele que muitas vezes nos inspira. Para fazer feminismo temos de usar ferramentas feministas e a linguagem tem lugar de destaque nessa caixa de ferramentas.

Qual é a realmente a dificuldade em mudar uma forma de falar e de escrever? Vamos lá a 'desdobrar' a língua.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora em sociologia da cultura
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