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Cientistas descobrem grande quantidade de fitoplâncton sob geleiras árticas

Uma nova descoberta realizada por cientistas no Ártico pode mudar muito do que sabemos sobre as atuais condições das cadeias alimentares e sobre as mudanças climáticas na região. Artigo de Jéssica Lipinski, Instituto CarbonoBrasil.

Recentemente, pesquisadores a bordo da missão ICESCAPE encontraram uma floração de fitoplâncton de cerca de 100 quilómetros abaixo de geleiras árticas, um achado que contradiz muito do que se sabia sobre o crescimento desses seres vivos no local.

O fitoplâncton, conjunto de organismos aquáticos microscópicos fotossintéticos, é base de muitas teias alimentares, pois alimenta o zooplâncton, que, por sua vez, serve de comida para animais maiores como peixes e cetáceos, e assim por diante.

Esse fitoplâncton, por ser fotossintético, necessita da luz do sol para gerar seu alimento, razão pela qual os cientistas não acreditavam que haveria desenvolvimento destes organismos abaixo das geleiras árticas, locais que, devido à reflexão da luz solar pelo gelo, recebem pouca iluminação da superfície.

Mas a baixa probabilidade mostrou-se possível quando os pesquisadores encontraram grandes quantidades do fitoplâncton nessas condições. “Não tínhamos ideia [de que eles existiam ali]. Se alguém tivesse me perguntado antes da expedição se veríamos florações sob o gelo, eu teria dito que isso era impossível. Essa descoberta foi uma surpresa completa”, comentou Kevin Arrigo, líder da missão ICESCAPE da Universidade de Stanford, que publicou o achado na revista Science.

E não só esse organismo foi encontrado, como a sua concentração abaixo do gelo era quatro vezes maior do que a normalmente registada em alto mar, e a sua taxa de fecundidade era particularmente alta, sendo que a população duplicava mais do que uma vez por dia, enquanto o fitoplâncton em águas árticas abertas só duplica de população a cada dois ou três dias.

“Estamos surpresos. Foi completamente inesperado. Foi literalmente a floração de fitoplâncton mais intensa que eu já vi nos meus 25 anos a fazer esse tipo de pesquisa. Presumia-se que havia pouca luz sob o gelo e não esperávamos ver muito”, observou Arrigo. “Isso é como achar a floresta amazónica no meio do deserto de Mojave”, acrescentou Paula Bontempi, bióloga e bioquímica marinha da NASA.

“Se você classificar todas as florações de fitoplâncton em qualquer lugar do mundo pela quantidade de fitoplâncton que há nelas, a floração sob o gelo que vimos durante a ICESCAPE ficaria no topo da lista. E isso estava a crescer sob uma camada de gelo oceânico tão grossa quanto a altura de uma criança de cinco anos”, lembrou Arrigo.

Ainda não há muitas informações sobre por quanto tempo essas florações abaixo do gelo têm ocorrido, mas os cientistas acreditam que, devido ao maior derretimento de gelo causado pelas mudanças climáticas, as ‘poças’ ou ‘lagos’ que se formam nas geleiras acabam por concentrar e permitir a passagem de luz solar, favorecendo o desenvolvimento do fitoplâncton.

“Nesse ponto não sabemos se a floração desse rico fitoplâncton tem ocorrido no Ártico por um longo período, e não observamos isso antes. Essas florações podem se tornar mais generalizadas no futuro, no entanto, se a cobertura de gelo do mar Ártico continuar a diminuir”, declarou Arrigo.

Como se sabe que o fitoplâncton é um dos grandes responsáveis por absorver carbono da atmosfera, a descoberta levantou algumas dúvidas com relação a seu efeito no meio ambiente. Poderia ser esse desenvolvimento do fitoplâncton bom por absorver um dos gases responsáveis pelas mudanças climáticas? Os pesquisadores enfatizam que ainda é cedo para tirar conclusões.

“Uma questão surge, se tivermos em consideração a nossa atual descoberta... isso muda o quadro global? Isso é uma das coisas que o grupo de cientistas vai ter que analisar... Isso quase certamente muda o que pensávamos que estava a acontecer no Ártico. É cedo para dizer se são boas notícias ou más noticias”, ponderou Bontempi.

E, se por um lado, esse poderia ser um efeito positivo desse fitoplâncton, por outro um impacto negativo poderia ser observado nas teias alimentares oceânicas. Isso porque observou-se que, com as temperaturas mais altas e o maior derretimento do gelo, o fitoplâncton está a florescer mais cedo, criando um desencontro nas cadeias alimentares.

“A minha preocupação é que o fitoplâncton continue a desenvolver-se e a crescer mais cedo durante o ano, e poderia tornar-se mais e mais difícil para as espécies migratórias sincronizarem os seus ciclos de vida para estarem no Ártico quando a floração estiver no seu ápice. Se o fornecimento de alimento está a aparecer antes, elas podem atrasar-se”, afirmou Arrigo.

“Uma baleia na Califórnia não tem uma forma de saber que a floração acontecerá um mês mais cedo nesse ano e não pode chegar lá mais rápido”, exemplificou o líder da missão ICESCAPE. Além disso, há vários tipos de fitoplâncton, e se alguns são fontes de alimento para muitos seres vivos, outros são tóxicos para a vida marinha e humana.

De qualquer maneira, a descoberta da missão ICESCAPE é muito importante, pois poderá servir de base para outros estudos que procurem desvendar as condições de desenvolvimento do clima e dos ecossistemas marinhos no Ártico.

“Embarcamos na ICESCAPE para validar os nossos dados de observação oceânica de satélite numa área da Terra que é muito difícil de chegar. Acabamos por fazer uma descoberta que esperamos que ajudará os pesquisadores e gestores de recursos a entender melhor o Ártico”, ressaltou Bontempi. “Essas florações poderiam ser talvez uma das primeiras grandes respostas que podemos ver das mudanças climáticas”, sugeriu C.J. Mundy, da Universidade de Manitoba.

12/06/2012

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