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Touradas versus solidariedade

Num só dia, dois casos bem diferentes: o sofrimento como espetáculo (Loureiro, Oliveira de Azeméis) e a solidariedade com bombeiros que recusaram a realização de uma tourada (Pedrouços, Maia).
“Tourada é tortura, não é arte nem cultura!”, gritaram os manifestantes em Loureiro, Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro.

A meio da tarde de domingo, 10 de junho, Loureiro, Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro, uma fila de carros marcava já a proximidade do ponto onde se realizaria um espetáculo de tourada.

Aos poucos, famílias iam entrando, muitos surpreendidos pela presença já de algumas dezenas de manifestantes que gritavam palavras de ordem anti-tourada: “O sofrimento não é divertimento”, “Tourada em Portugal é vergonha nacional”, “Tourada é tortura, não é arte nem cultura!”.

Entre este grupo de manifestantes tem vindo a desenvolver-se uma partilha de experiências interessante, independentemente de se tratar de pessoas sem filiação partidária, do PAN ou do Bloco de Esquerda. Une-os a vontade de por fim a este espetáculo que maltrata animais, touros e cavalos, mas que também degrada quem o vê.
Pedro Filipe Soares, deputado do Bloco marcou de novo presença nestes protestos.
O megafone serviu, para além de lançar as palavras-de-ordem, para esclarecer sobre os maltratos dados aos touros antes – para lhes retirar capacidade de defesa -, durante e depois da tourada – nomeadamente para retirar as farpas ainda cravadas nos músculos.

Discutiu-se como as associações da tauromaquia, num momento em que talvez haja decréscimo nas compras de bilhetes para espetáculos, em que se sabe que a maior parte da população portuguesa não apoia estes eventos, têm vindo a fazer pressão e intensa propaganda para que o Norte do país, que nunca teve qualquer 'tradição' deste género, acolha também touradas.

No estado espanhol, em 2006, a televisão pública deixou de emitir touradas pelo seu elevado custo e por a emissão em horário diurno constituir um problema para as crianças que as possam estar a ver. Em 2010 a Catalunha proibiu a realização de touradas. No mesmo ano foi lei, em todo o estado, que não podem assistir a touradas menores de 12 anos. E tudo isto na região da Europa que mais tradição tinha deste tipo de espetáculos. E, lá como cá, os lóbis pró-tourada continuam a pressionar no sentido do retrocesso destas medidas.

Não conseguimos perceber ao certo quantas entradas terão vendido, até porque no recinto da associação equestre que acolheu o espetáculo, decorriam outros eventos. Mas vimos entrar apenas algumas dezenas de pessoas. Sabemos aliás que muitos destes espetáculos se têm saldado por grandes prejuízos. Mas os lóbis insistem em criar habituação a esta barbárie, como têm insistido para que a tourada, aqui ou no estado vizinho, seja considerada um ato de 'cultura'. Viam-se, infelizmente, muitas crianças a ser levadas pelas mãos dos pais a assistir à tourada em Loureiro. Só podemos lamentar que não exista ainda de forma generalizada a consciência de assistir a maus-tratos não educa, pelo contrário, transmite valores errados.

Por esta e outras razões, a ação destes protestos vai ter de se continuar a fazer sentir.

Em vez da tourada, uma Festa Alternativa Solidária

Entretanto em Pedrouços, Maia, distrito do Porto, a realidade era totalmente diferente. Um grupo de pessoas defensoras dos direitos dos animais teve conhecimento de que os bombeiros de Pedrouços, com graves dificuldades financeiras, pensaram em fazer uma tourada para recolher fundos. Ao discutir a questão numa rede social houve três pessoas tomaram a iniciativa de lhes propor fazer uma Festa Alternativa Solidária, com música, artesanato, comida – em grande parte vegetariana – durante a tarde e noite de domingo.

Em 15 dia apenas, com apoio de muito voluntariado, puseram de pé um evento que reuniu muita gente e excelentes atuações musicais num parque público cedido pela Câmara da Maia.

As várias crianças dentro do recinto tinham à sua disposição um grande espaço verde, um pequeno parque de diversões e música para cantar e dançar, do que tiraram bom proveito.

Sem terem conseguido grande apoio da comunicação social, a afluência não foi tanta quanto o espetáculo e a própria ideia de solidariedade alternativa mereciam. Por certo, futuras realizações, preparadas com mais tempo, solucionarão este problema. Vontades, imaginação, ação não faltaram. E ficou, acima de tudo, um grande exemplo de iniciativa cidadã para todo o país.


 

Sobre o/a autor(a)

Investigadora em sociologia da cultura
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