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Construir, abrir, reforçar a Frente de Esquerda

“É urgente acolher, ao lado dos partidos que constituem a Frente de Esquerda, todos aqueles que desejarem ser parte ativa da construção deste grande movimento popular.” Por Janette Habel, Pierre Khalfa e Evelyne Sire-Marin, membros do Conselho Nacional de campanha da Frente de Esquerda
Foto da página do facebook do Parti de Gauche

Participámos com entusiasmo na campanha da Frente de Esquerda, sem ser militantes de nenhum dos partidos que a compõem, e queremos prolongar este combate, agora que a derrota de Nicolas Sarkozy abre um novo período político. Pela sua forma bonapartista de governo, pela sua corrida desenfreada atrás do Front National, pela sua vontade de pôr em causa os próprios fundamentos dos compromissos sociais saídos da Segunda Guerra Mundial, o presidente que saiu representava um perigo para a democracia. Mas a vitória de François Hollande, se é certo que abre perspetivas novas, está longe de permitir resolver os problemas que esta eleição trouxe à luz do dia, ao mesmo tempo que a grande percentagem de Marine Le Pen mostra que uma parte do eleitorado popular crê encontrar na xenofobia do Front National uma solução para os seus problemas sociais e as suas angústias.

“A austeridade pode já não ser uma fatalidade”, disse François Hollande no dia da sua eleição. Se lhe devemos dar o crédito desta afirmação, é preciso porém lembrar que o programa do novo presidente permanece manchado pelos dogmas do neoliberalismo que provocaram a catástrofe em todo o lado. Assim, menciona a intenção de chegar a um equilíbrio orçamental em 2007, que forçará ao corte maciço de despesas públicas se a reforma da fiscalidade se revelar mínima. Querer a todo o custo reduzir os défices públicos em período de estagnação económica só terá o efeito paradoxal de aumentá-los. Para quê, de resto, querer renegociar o Pacto Orçamental Merkel-Sarkozy se for para aplicar a sua principal disposição, a exigência do equilíbrio orçamental? E por que não submeter este tratado a referendo?

O programa que a Frente de Esquerda defendeu tinha a ambição de responder a uma questão maior, a de fazer a França sair das garras dos mercados financeiros para dar início a um novo modo de desenvolvimento fundado na satisfação das necessidades sociais, a redução das desigualdades e o respeito dos imperativos ecológicos. A dinâmica popular que se manifestou durante a campanha foi o sinal de que este programa de luta contra as políticas neoliberais estava de acordo com as preocupações profundas dos nossos concidadãos. Com menos de 5% no início da campanha eleitoral, Jean-Luc Mélenchon termina com mais de 11% dos votos, apesar da intensa pressão do voto útil. Para aquelas e aqueles que querem, à esquerda, transformar a sociedade, uma nova força política emergiu e pode ter como ambição tornar-se maioritária à esquerda no futuro. Importa que as próximas eleições legislativas confirmem e ampliem este movimento.

Devemos porém abordar duas questões para que o processo promotor da campanha presidencial não perca impulso. A primeira diz respeito à relação com o governo e à orientação política futura da Frente de Esquerda. A Frente de Esquerda deve claramente indicar que tem vocação de governar e que não é simplesmente uma força de protesto. Deve porém colocar a questão de saber se, em relação ao programa do presidente e à relação de forças que saiu das eleições, a presença de ministros saídos do seu seio pode infletir significativamente sobre ele. No estado atual, a Frente de Esquerda não pode participar do governo. Deve manter toda a sua independência.

Política de austeridade ou política de prioridade ao emprego e à partilha de riquezas? O orçamento de 2013 será decisivo para avaliar esta alternativa. Mas a resposta dependerá também da nossa própria capacidade de fazer prevalecer as soluções propostas por nós. A Frente de Esquerda deverá pesar nas orientações do governo apoiando-se nas mobilizações sociais. Mas deverá recusar, em qualquer situação, um orçamento de austeridade. Em contrapartida, deverá apoiar qualquer medida que permita libertar o país dos mercados financeiros, que contribua para a transição ecológica, que promova os direitos, a igualdade entre os homens e as mulheres, o reforço dos serviços públicos e da melhoria das relações de forças dos assalariados com o patronato.

A segunda questão diz respeito à estruturação da Frente de Esquerda, que deve ultrapassar a sua forma atual de cartel eleitoral, porque soube criar uma dinâmica de agrupamento para além dos partidos que a fundaram. Não apenas agrupa no seu seio, facto histórico à esquerda, organizações muito diversas pela sua história e cultura políticas, como também foi capaz de atrair na campanha eleitoral milhares de pessoas que não pertencem a nenhum dos seus componentes, como é o caso dos signatários deste texto. É importante ir ao encontro desta dupla dinâmica. É preciso por isso permitir a adesão individual direta à Frente de Esquerda, para fazer viver e crescer a esperança cidadã que ela fez nascer.

Propomos, assim, num primeiro momento, transformar as “assembleias cidadãs” e os diferentes agrupamentos que participaram na campanha em comités da Frente de Esquerda, agrupando os aderentes das organizações e os que não têm cartão. É urgente acolher ao lado dos partidos constitutivos da Frente de Esquerda todos aqueles que desejam ser parte ativa da construção deste grande movimento popular. Será preciso depois refletir sobre a representação a nível nacional. Para além disso, neste verão, é preciso organizar uma iniciativa política comum a todos os componentes da Frente de Esquerda para tirar as lições da sua experiência unitária e para pensar no seu futuro.

Artigo publicado em rezocitoyen.org

Tradução de Luís Leiria para o Esquerda.net

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