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O velho eduquês

A regeneração da educação pretendida por Crato não é outra coisa senão a transformação do conservadorismo ideológico em política pública.

A direita que nos governa faz crer que todas as suas decisões são técnicas, não políticas. E muito menos ideológicas. Cortar salários, privatizar serviços, anular direitos e o que mais for, é tudo fundado no "rigor", na "eficiência", no "pragmatismo". E, no entanto, o disfarce é frágil: é apenas e só em cumprimento da mais ideológica das cartilhas que este Governo decide o que decide.

Assim é com a política de educação. Do "independente" Nuno Crato deu-se - e continua a dar- -se - a imagem de alguém que vem pôr ordem na bagunçada (coisa com tradição nefasta em Portugal...). Crato não é diferente de qualquer outro ministro deste Governo: todos acham que os sectores que administram eram pântanos de irresponsabilidade e de farra antes de eles chegarem ao poder; e juram que, com eles, vai "voltar" a disciplina, a seriedade e a exigência. Crato desempenha esse papel com mestria, justiça lhe seja. Debita para o senso comum que a escola foi tomada de assalto por aventuras pedagógicas e deixou de ensinar. Que o facilitismo cultivado por esse "eduquês" está a produzir gente ignorante e a transigir com a incompetência. E, numa cruzada contra esse apodrecimento - algo sempre sedutor para os leitores de tabloides -, ele não se propõe menos que a regeneração da educação nacional.

Pois bem, essa regeneração não é outra coisa senão a transformação do conservadorismo ideológico em política pública. São três as suas expressões mais evidentes. A primeira é a sua conceção de curriculum. Crato é há muito porta-voz da tese de que a educação está hoje muito pior do que antigamente. E é ao antigamente que quer voltar. A desvalorização curricular da educação artística (musical, visual e tecnológica) e da educação para a cidadania ou a fixação no suposto papel nuclear dos exames mostra uma desconsideração do papel da escola na formação do sentido crítico, da capacidade criativa, da formação de convicções éticas e na experimentação da cidadania. É uma escola regressada à função de ensinar a memorizar, ler, escrever e contar. Uma escola que forma força bruta de trabalho desqualificado e abdica de formar gente crítica, criativa e consciente dos seus direitos e deveres. Para um país condenado a ter como única vantagem comparativa os baixos custos da mão de obra, isso é quanto basta.

Ideológico é também o desdém para com a educação de adultos e a insinuação de que a certificação de competências incluída no programa Novas Oportunidades era uma certificação da ignorância. Essa recusa de que a vida de trabalho ensina e cria habilitações, tantas vezes mais perfeita e intensamente do que as aprendizagens formais em meio escolar, tem a marca de um elitismo arrogante que não se coíbe de humilhar milhares de homens e mulheres que não tiveram acesso à escola enquanto jovens e que não lhes reconhece nem valida as competências que o percurso da vida lhes deu. Mais ideologia do que isto é difícil.

Ideológica é, enfim, a criação de 115 mega-agrupamentos escolares, alguns com mais de 3600 alunos. Invocar para o efeito o "reforço do projeto educativo e da qualidade pedagógica nas escolas" é brincadeira de mau gosto. O que está em causa é tão-só a transformação das escolas em armazéns de anonimato e mediania, desqualificando o serviço público de educação e favorecendo assim o ensino privado que aposte na personalização do trabalho educativo, vedado desta forma à escola pública.

A escola pública de qualidade é uma das gorduras do Estado que o Governo quer queimar. O espírito crítico, a aprendizagem da estima pela diversidade, a exigência cidadã arderão por arrasto. É a dieta ideal para dar à sociedade gente mansa e com a versão oficial da felicidade bem decoradinha.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” a 8 de junho de 2012

Sobre o/a autor(a)

Professor Universitário. Dirigente do Bloco de Esquerda
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