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Quem é que fica melhor com os cortes nos salários?

Lagarde e Borges têm responsabilidades nesta crise mas “pairam” sobre ela, do alto dos seus pedestais do FMI, que os isentam do pagamento de impostos.

A diretora do FMI, Christine Lagarde, disse em entrevista, que está mais preocupada com a África subsaariana do que com a Grécia e insinuou que o problema dos gregos era não pagarem impostos. Lagarde não paga um tostão de impostos sobre os seus rendimentos e ainda tem um aumento de salário garantido todos os anos. Lagarde, antiga ministra das finanças de Sarkozy, recebe mais de 438 mil euros por ano sem ter de pagar qualquer taxa ao Estado, mais do que o Presidente americano, que paga os impostos previstos na lei.

António Borges, que liderou o departamento europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI) até há quatro meses atrás, e que reintegrou há pouco tempo a administração da Jerónimo Martins, de Soares dos Santos, defendeu esta semana que "diminuir salários não é uma política, é uma urgência" para o país. O português, antigo vice-presidente do PSD, recebeu em 2011 do FMI 225 mil euros sem ter pago nenhum imposto, devido ao seu estatuto de funcionário da organização.

Dois casos que têm em comum o facto de serem dois rostos de um mais vasto regime austeritário em Portugal e na Europa, e têm como premissa a ideia que aos europeus não resta outra saída senão continuarem a “aceitar” empobrecer. Lagarde e Borges têm responsabilidades nesta crise mas “pairam” sobre ela, do alto dos seus pedestais do FMI, que os isentam do pagamento de impostos.

Não deixam de ser curiosas as palavras de Borges, à luz da sua condição de nome escolhido pelo Governo português para liderar o processo de privatizações e de antigo dirigente do americano Goldman Sachs International, filial europeia do banco. Marc Roche, jornalista do "Le Monde" e autor do livro "O Banco - Como o Goldman Sachs dirige o mundo", considerou que existe um fio condutor entre as políticas de austeridade na Europa e a presença de "veteranos" do Goldman Sachs na política europeia, como o caso de Borges. Note-se que em 2001 Borges supervisionou, por exemplo, o empréstimo à Grécia.

Borges e Lagarde. Uma insulta os gregos, o outro incita o Governo a continuar o caminho da recessão e de pobreza para os trabalhadores. E não tardou que o Governo, através de Vítor Gaspar seguisse na sua peugada. Quatro dias depois de Passos Coelho afirmar um plenário que o Governo não planeia cortar salários, Vítor Gaspar desmentiu o PM.

Nesta segunda feira na apresentação dos resultados do quarto exame da troika, o ministro das Finanças não teve dúvidas: o ajustamento da economia portuguesa depende “de uma evolução favorável dos custos unitários do trabalho que permita ganhar competitividade”, o que será feito à custa da descida dos salários, que é “inevitável”, nas palavras de Gaspar.

Paciência e persistência para que aceitemos que é inevitável ficarmos mais pobres, é o que nos recomenda este Governo, perante o descontrolo dos números do desemprego e de uma economia, um ano depois da troika, que continua a encolher. 2013 deixou de ser um horizonte para ser mais um ano de um contínuo calvário sem fim a vista.

Mas quem ganha com menos salários, menos poder de compra, mais pobreza? Os cortes nos salários dos trabalhadores são positivos para quem? Empobrecer os trabalhadores, dá a ganhar a quem? Expliquem-nos por favor, que não conseguimos perceber.

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