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Música para cinema: “Alice”

“A meu ver, o som deste filme representa o silêncio interior de um pai vs. o som agressivo que o rodeia diariamente na cidade de Lisboa.”
Imagem de um concerto de 2007, no Maria Mattos, em Lisboa

 Compôs recentemente a banda sonora do filme Alice… Como foi? Imagino que tenha tomado contacto com o filme ou pelo menos com a história anteriormente... presumo que tenha procurado adequar a sua música ao filme. Foi fácil?

O trabalho com o realizador Marco Martins, nesta sua primeira longa-metragem, foi fascinante. Passámos longas horas a falar sobre o filme e debruçámo-nos muito sobre a psicologia das duas personagens principais. O que mais me interessa na música para cinema é exactamente a ideia de poder transmitir musicalmente tudo o que está por detrás das imagens, nomeadamente o interior das personagens. Este é um processo complicado e a sua gestão pode levar meses até conseguir alcançar resultados interessantes e que possam servir o filme. A representação musical dos vários estados de espírito de um ser humano, mais do que a música circunstancial, é o que mais me atrai neste meio de colaboração artística. Neste filme, comecei por dividir a música em três capítulos diferentes: o primeiro é a rotina do Mário à procura da filha desaparecida, a sua obsessão e as suas passagens pela cidade; o segundo é a esperança de encontrar Alice, as câmaras de filmar e os vídeos que visiona noite após noite; o terceiro e último capítulo representa o desespero, a solidão e a indiferença estampada no rosto de todos aqueles por quem Mário se cruza na rua. Em Alice todos os inputs musicais centram-se quase sempre no interior de um pai que nunca desiste, na reacção contrária da mãe e no vazio máximo causado pelo desaparecimento da sua filha. A composição da música, assim como a sua edição, devem muito à mestria no trabalho de som da Elsa Ferreira (edição) e do Branko Neskov (mistura). A meu ver, o som deste filme representa o silêncio interior de um pai vs. o som agressivo que o rodeia diariamente na cidade de Lisboa.

Em que filme sentiu que a relação entre os dois mundos estivesse melhor conseguida da sua parte?

Alice, como já se percebeu, é um filme muito especial para mim; também gosto muito do trabalho com Margarida Cardoso em A Costa dos Murmúrios, com Mário Barroso em O Milagre Segundo Salomé e, claro, com José Álvaro de Morais em Quaresma. São todos projectos muito diferentes.

Da entrevista a André Gomes

Alice - Music 2

Alice - Music 1

(...)

Resto dossier

Vamos ouvir Sassetti!

“Ouçam [a minha música], tentem compreender, gostar, partilhar”, disse o pianista e compositor Bernardo Sassetti, numa das suas últimas entrevistas. Falecido prematuramente aos 41 anos, que melhor homenagem fazer-lhe que não seja ouvir a sua música? Neste dossier, procuramos traçar um percurso, baseado nas palavras do próprio Sassetti, acompanhados de links para vídeos de apresentações e músicas. Dossier de Luis Leiria.   

Sassetti tinha uma aura muito forte, uma maturidade impressionante

Carlos Barreto (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria), integrantes do trio de Bernardo Sassetti durante quase 15 anos, evocam o pianista falecido prematuramente e homenageiam a pessoa séria, bem humorada, competente e multifacetada.

Quem é

Um terrestre à procura de qualquer coisa, sobretudo na música, que ainda não sabe muito bem o que é.

Influências: Bill Evans

Em 1983, Sassetti estudava no Passos Manuel, tinha aulas particulares de piano e solfejo e um gosto especial pela música clássica. Um programa da RTP2, Jazz Magazine, que exibiu um concerto do pianista Bill Evans, fê-lo abraçar o Jazz.

A paixão pelo Jazz

Devia ser considerado um adolescente diferente, não especial, mas diferente, já que, em vez de ouvir os sons da época, passava as horas ligado a Duke Ellington e a Thelonius Monk.  

Os primeiros CDs

 

“A música que faço não se dá bem com a lógica de uma multinacional que, onde aposta, tem que ver de imediato garantias de vendas muito rápidas.”

O trio

O Carlos Barretto e o Alexandre Frazão fazem parte da minha vida de uma forma magnífica. Eles são uma inspiração. 

O duo com o Mário Laginha

“A empatia que partilho com o Mário, de concerto a concerto, tem sido muito enriquecedora para mim.”

3 pianos

"O Bernardo é um grande impulsionador de um lado caótico.” Bernardo Sassetti veste uma expressão mais interrogativa que surpreendida, e todos se riem.  

Música para cinema: “Alice”

“A meu ver, o som deste filme representa o silêncio interior de um pai vs. o som agressivo que o rodeia diariamente na cidade de Lisboa.”

A música

"Uma vez até atingi aquilo de que muitos músicos já me falaram, que é o estado Alfa … é um estado em que já não se sente o próprio corpo. Está-se a fazer, sabe-se o que se está a fazer, mas já não se sente o corpo, perde-se a noção de estar ali."