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Morreu Bernardo Sassetti

Faleceu o pianista e compositor Bernardo Sassetti, que caiu de uma falésia no Guincho, quando estava a fotografar. Tinha 41 anos.
Bernardo Sassetti. Imagem Esquerda.net

Bernardo Sassetti destacou-se internacionalmente como compositor e pianista, tendo tocado um pouco por todo o mundo. Músico de formação clássica, explicou em várias entrevistas que foi ao ouvir o pianista norte-americano Bill Evans que decidiu abraçar o jazz. A linha melódica e sensível do pianista de New Jersey influenciaram o então jovem músico português, e essa influência haveria de estar presente em toda a sua extraordinária carreira.

Profissionalmente começou em 1987, tocando em concertos locais com o quarteto de Carlos Martins e o Moreiras Jazztet.

Estudou jazz nos Estados Unidos, e chegou a fazer parte da United Nations Orchestra, fundada pelo legendário Dizzy Gillespie e que tinha a participação de inúmeros músicos latinos. Talvez por isso, o primeiro disco de Sassetti como band leader foi “Salsetti” (1994), onde está patente a influência do chamado jazz latino, muito “suingado”, diferente da linha introspetiva que estaria presente em outros trabalhos (o título é um trocadilho com as palavras 'salsa' e 'Sassetti'). O disco teve a participação de músicos consagrados, como o veterano saxofonista cubano Paquito D'Rivera.

Em 1997, gravou “What Love is” acompanhado pela Orquestra Filarmónica de Londres e tendo como convidado especial o cantor Sting.

Com trio de piano e a solo

Com o CD “Nocturno” (2002), inaugura o registo de uma série de trabalhos em trio, acompanhado sempre do contrabaixista Carlos Barreto e do baterista Alexandre Frazão. O trio de piano, a formação de jazz favorita de Bill Evans e de tantos outros pianistas, foi também uma das formas em que Sassetti pôde exprimir de forma mais acutilante a sua capacidade como pianista e as suas qualidades de compositor. O trio gravaria também “Ascent” (2005) e “Motion” (2010) e apresentar-se-ia em inúmeros concertos.

Mas Bernardo Sassetti também fez muitos trabalhos a solo. Indigo (2004) é talvez o mais extraordinário exemplo desta sua faceta. Levou a exploração do piano aos limites, tocando a dois pianos, com Mário Laginha, e até a três pianos, com Laginha e Pedro Burmester.

Nos concertos, Sassetti apresentava-se sempre muito bem disposto, e gostava de fazer humor ao apresentar as músicas. Em 2008, o pianista apresentou-se no Encontro 1001 Culturas, promovido pelo Bloco de Esquerda e pelo Grupo Unitário das Esquerdas no Parlamento Europeu. Nesse encontro, Bernardo Sassetti e Mário Laginha interpretaram músicas célebres de Zeca Afonso reescritas para dois pianos no concerto "Grândolas".

Música de cinema

Outra faceta importante da carreira de Bernardo Sassetti foi a composição de bandas sonoras para cinema. O clima de angústia de “Alice”, de Marco Martins, que retrata a tragédia de um casal cuja filha desaparece, não seria o mesmo sem a música de Sassetti, que foi também editada em CD. Compôs, entre outras, a banda sonora de "Quaresma" de José Álvaro Morais, "O Milagre Segundo Salomé" de Mário Barroso, "A Costa dos Murmúrios" de Margarida Cardoso. Com “Maria do Mar”, de Leitão de Barros, filme de 1930, Sassetti faria uma nova experiência – a de compor uma banda sonora para um filme mudo, para piano, orquestra e voz, que foi apresentada ao vivo em diversas oportunidades. O pianista considerava esse seu trabalho um “marco importante na minha carreira, tendo-me permitido olhar a música (em geral) de maneira diferente”. Nele, explicou Sassetti, procurou contar a história do filme de Leitão de Barros, “sobretudo na relação dos portugueses com o mar, na vida dos pescadores e na evidente tragédia provocada pelas intrigas familiares”, retratadas de forma quase documental e carregadas de uma enorme carga expressionista.

Uma coisa estúpida”

“Encaro com perda com estupefação”, disse o pianista e amigo Mário Laginha à agência Lusa, sublinhando que Bernardo Sassetti era “um enorme amigo e um músico maravilhoso”. Visivelmente emocionado e sem conter as lágrimas, Laginha sublinhou que, além dos trabalhos que fizeram em conjunto, ambos continuavam a ter projetos em comum. “É uma coisa estúpida de todo”, lamentou.

O editor discográfico de Sassetti, Pedro Costa, da Clean Feed, sublinhou que “o Bernardo era uma personalidade, um iluminado, com grande energia, muito acima das coisas materiais. Ele tinha um grande compromisso com a música, um perfeccionista, músico excecional porque autêntico”, afirmou.

"O Bernardo trouxe uma lufada de ar fresco porque ele era o que tocava, e ficava admirado quando as pessoas lhe diziam que a sua música era triste porque era tão bela, quando era de uma grande alegria e iluminada”, afirmou.

“Que surpresa e que crueldade, Bernardo. Sem dizeres nada a ninguém, ainda na semana passada lá estavas entre os teus”, escreveu no Facebook o deputado Francisco Louçã. “Toca sempre, Bernardo, não nos cansaremos nunca de te ouvir. E de te sentir. Foste ainda maior do que a música”.

Preparava um livro de fotografia

O corpo de Bernardo Sassetti foi encontrado pela Polícia Marítima na zona do Abano, no Guincho. Segundo fonte próxima da família, o músico terá morrido acidentalmente quando fazia fotografia, para um livro que pretendia publicar.

Bernardo Sassetti era casado com a atriz Beatriz Batarda e pai de duas filhas.

Haverá duas cerimónias fúnebres, uma pública e outra privada, não se conhecendo ainda datas e locais.

Canal de Bernardo Sassetti no youtube

Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti n'Os Cantos da Casa

Ana Laíns n'Os Cantos da Casa

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