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O haraquiri da FNAC: de boas intenções está o mercado cheio

No passado dia 27 de Abril, os participantes na reunião do conselho de administração do grupo económico francês PPR foram confrontados com uma manifestação organizada por trabalhadores da FNAC, uma das empresas do grupo, contra a política de “moderação salarial” e o despedimento de mais de 500 empregados. Por Nuno Casimiro.
Manifestação de trabalhadores da FNAC, 27 de abril de 2012 - Foto de CitizenSide

No passado dia 27 de Abril, os participantes na reunião do conselho de administração do grupo económico francês PPR (sigla que deriva do nome inicial da sociedade: “Pinault-Printemps-Redoute”) foram confrontados com uma manifestação organizada por trabalhadores da FNAC, uma das empresas do grupo. A manifestação foi a mais recente de um protesto que se arrasta já há semanas, em que os trabalhadores se opõem à política de “moderação salarial” imposta pelo patrão da FNAC, Alexandre Bompard, a que se soma ainda o despedimento de mais de 500 empregados1.

Quase 60 anos depois de ter sido criada por Max Théret e André Essel, este é o último sinal da refundação da FNAC.

Nasceu em França em 1954, como sigla da empresa “Fédération Nationale d'AChats”, tendo sido pouco depois rebatizada como “Fédération Nationale des Cadres”. Rapidamente se afirmou na venda de produtos para fotografia, aos quais se foram somando artigos ligados ao som e à imagem até que, em 1974, passou a disponibilizar também livros e a assumir em definitivo um carácter de “loja cultural”.

Presente em 8 países, a FNAC chegou a Portugal em 1998, com a abertura do primeiro estabelecimento no Centro Comercial Colombo, a que se somaram 16 outros nos anos seguintes.

Importando o modelo da congénere francesa, também no nosso país a marca se afirmou como “um espaço de diversidade cultural (...) que permite desfrutar livremente da Cultura e Tecnologia.” As suas lojas representaram uma completa novidade na forma como se contactava com a “Cultura”: num mesmo espaço, uma quantidade impressionante de livros, música e filmes era colocada ao dispor dos que entravam, tratados como visitantes antes de serem clientes. Uma revolução estava em marcha e a FNAC assumia-se muito mais como “conceito” do que como simples “loja”. A essa oferta, juntavam-se os eventos regulares, numa programação diversificada e de acesso livre, que incluía concertos, apresentações de livros, debates, exposições, exibição de filmes e, pormenor importante, os preços competitivos que a dimensão e o estatuto lhe permitiam.

O consumo de bens culturais tornou-se, nesse espaço, uma realidade desempoeirada, sem o silêncio pesado das coisas estranhas. Passou-se a imagem da “democratização da cultura” e a FNAC passou a ser incontornável, primeiro, e absolutamente indispensável, depois, “secando” o tecido de pequenas lojas de livros e discos, na sua maioria incapazes de oferecer preços comparáveis ou a mesma atrativa experiência no momento de ir às compras. Além disso, localizada sobretudo em centros comerciais, passou a estar ainda “mais à mão” do que as livrarias dos centros urbanos, por onde se passa mas não se entra.

Sem verdadeira concorrência, a marca passou a demonstrar tiques de oligopólio: definindo gulosas margens de lucro e condições de distribuição, venda e devolução, reduzindo cachets aos convidados, concessionando todo e qualquer espaço de visibilidade dos produtos que disponibiliza. A FNAC não é, nem nunca foi, uma mega-livraria-discoteca-videoteca, mas passou a funcionar como um hipermercado.

Em quase 40 anos de existência como “loja de cultura”, e nos 14 desde que chegou a Portugal, o consumo doméstico de bens culturais também sofreu significativas mudanças, sobretudo derivadas da emergência dos suportes digitais. O consumo de bens deste tipo é hoje radicalmente diferente e as consequências são evidentes, desde logo, na progressiva substituição das estantes de CDs, DVDs e livros por aparatos electrónicos.

Não obstante, estas modificações não resultam apenas de condicionantes externas. Se é certo que, por exemplo, as editoras se tornaram em gigantescas máquinas de imprimir livros, não é menos verdade que a aposta na rotatividade de stocks apenas alimenta o ciclo pouco virtuoso em que nos movemos. E a FNAC, concentrando parte substancial do mercado, amplifica e apressa as mais nefastas opções.

Por outro lado, a estratégia da empresa face à evidente transformação do tipo de consumo e consumidores, foi a de, embora mantendo o discurso de “espaço de cultura”, concentrar-se em valores e produtos rentáveis ao mesmo tempo que reduzia custos com atividades agora supérfluas como a programação regular dos FórumFnac. Como diz aquele que mais tempo trabalhou na casa-mãe, ir à FNAC “já não significa nada de especial”2 quando, como confessa um outro empregado, aos trabalhadores da secção de livros é pedido que impinjam cartões de fidelidade3.

Abdicando da sua natureza de loja especializada, com funcionários conhecedores e capazes de responder a uma clientela exigente e com relativo poder de compra, a FNAC banalizou-se e transforma-se a passos rápidos numa “mera” loja de eletrodomésticos. É a esse respeito significativo o facto de, ainda que como projeto piloto, tenha começado a vender aspiradores com design nórdico numa das lojas parisienses.

Tudo isto poderia ser apenas uma questão interessante para quem siga as dinâmicas dos grupos económicos e o ajuste dum modelo de negócio, não fosse o papel absolutamente incontornável que a FNAC assumiu, em particular em Portugal. No nosso país, ao contrário de outros, a empresa representou uma verdadeira concentração da venda de bens culturais, à medida que o comércio tradicional foi definhando – por inúmeras razões, entre as quais, o modelo de desenvolvimento territorial e económico que permitiu e estimulou a proliferação de centros comerciais. A aparente democratização da cultura que prometia a abertura da loja no Colombo deu assim lugar a uma oferta cada vez mais homogénea e limitada mas, sobretudo, cada vez mais “única”, por falta de reais alternativas.

Finalmente, que uma cadeia de lojas deste género subalternize livros e discos em benefício de efervescências eletrónicas apenas demonstra a perversão contemporânea de um conceito chave: a arte e a cultura não são entretenimento, por muito que entretenham.

François-Henri Pinault, o diretor-geral do grupo que detém a FNAC, assumiu que esta deixou de ser uma prioridade assim que se tornou clara a intenção de recentrar os interesses do seu grupo económico nos sectores dos produtos ditos de luxo. Na reunião do passado dia 27 de Abril, enquanto era sacudida pela polícia a manifestação dos trabalhadores da FNAC que protestavam contra a política de “moderação salarial”, foi aprovado o aumento em 10% da remuneração anual de Pinault, que se situa agora em 3 milhões de euros.

Artigo de Nuno Casimiro


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