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1º de Maio: sair à rua em defesa do que é nosso

Dizem que ir para a rua não muda nada. Mas sabemos que ir para a rua muda tudo. Porque sabemos que jamais os direitos foram dados; foram sempre conquistados!

Hoje é dia 1 de Maio. É Dia da/o Trabalhador/a. É dia de sairmos à rua e dizermos que não aceitamos que delapidem os nossos direitos! Não aceitamos que nos roubem o futuro nem o direito a vivermos uma vida digna! E que não aceitamos os ardilosos eufemismos linguísticos utilizados pelos serviçais do capital para destruir os direitos conquistados: hoje é dia de gritarmos bem alto que temos direitos e não regalias! Foram conquistados, não foram dados!

Recordemos os motivos que estão na origem da celebração do Dia do/a Trabalhador/a no dia 1 de maio: o massacre de trabalhadoras/es quando lutavam pelo direito a uma jornada de trabalho de 8 horas!

De facto, em 1884, a Federation of Organized Trades and Labor Unions, dos EUA, definiu o dia 1 de maio de 1886 como limite para que se estabelecesse uma jornada de trabalho de 8 horas. Nesta data, realizaram-se diversas greves em todo o país e, no dia 4 de maio, decorreu em Chicago uma manifestação que culminou no brutal massacre de Haymarket1.

Em 1889, a II Internacional Socialista declarou o 1º de maio como dia de luta pelo direito às 8 horas de trabalho. No ano seguinte, o dia 1 de maio foi celebrado em diversos países tendo começado a esboçar-se como o Dia das/os Trabalhadoras/es2.

Em Portugal, o Dia do Trabalhador foi assinalado pela primeira vez em 18903 e o reconhecimento de uma jornada de trabalho de oito horas foi conseguido um ano depois, se bem que apenas para os homens e para uma profissão (os manipuladores de tabaco)4.

Apesar desta celebração, o Dia do Trabalhador só foi declarado feriado nacional com o 25 de abril de 1974, tendo sido celebrado livre e nacionalmente a 1 de maio desse ano. Foi também com Abril que finalmente se reconheceram e consagram na Constituição reivindicações das/os trabalhadoras/es tais como o direito ao trabalho, o direito a salário igual para trabalho igual, o direito à retribuição do trabalho, ao repouso e ao lazer, ao descanso semanal e a férias pagas, direito a proteção social no desemprego, na doença e na velhice ou o direito a um limite máximo da jornada de trabalho.

Estes direitos são nossos; são de todas as pessoas que lutaram e feneceram pugnando por eles; são das/os trabalhadoras/es do futuro. Não aceitamos que nos roubem o nosso futuro! Nem aceitamos voltar atrás!

Em 1891, Leão XIII escreveu a encíclica Rerum Novarum sobre a condição dos operários (eis uma rara oportunidade para citar um Papa) onde refere que “os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça duma concorrência desenfreada. A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. A tudo isto deve acrescentar-se o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão dum pequeno número de ricos e de opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão dos proletários”.

Poderia esta citação ser mais atual? Parece haver um plano montado para nos fazer voltar atrás mais de um século! Mas nós temos memória e continuaremos a lutar pelos nossos direitos!


1Esta manifestação estava a terminar quando a polícia ordenou aos manifestantes que dispersassem. De súbito, foi lançada uma bomba que matou uma pessoa e feriu outras setenta. Centenas de pessoas foram detidas e interrogadas num processo que convenientemente condenou oito dos principais organizadores da luta laboral em Chicago, alguns dos quais nem sequer se encontravam em Haymarket aquando do lançamento da bomba.

2Curiosamente, nos EUA o dia da/o trabalhador é assinalado na primeira segunda-feira do mês de setembro, sendo esta data conhecida como Labor Day. Eis os motivos:

No dia 6 de agosto de 1882, a Central Labor Union of New York City declarou que o dia 5 de Setembro desse ano seria feriado para as/os trabalhadores da cidade e realizar-se-iam paradas e celebrações. Em 1884, a mesma instituição anunciou que passaria a considerar anualmente a primeira segunda-feira do mês de setembro como o Labor Day, desejando que este fosse um feriado universal para as/os trabalhadores. Em 1887, o estado de Oregon declarou este dia feriado. Em 1894, o presidente Grover Cleveland decretou o Labor Day feriado nacional, desviando intencionalmente a celebração do Dia do Trabalhador do dia 1 de maio, data conotada com reivindicações laborais e opressão de trabalhadoras/es. Nos EUA, o Labor Day celebra-se até hoje na primeira segunda-feira do mês de setembro.

3Nesta data, cerca de 8 mil trabalhadores abandonam os seus postos de trabalho e dirigem-se pacificamente ao túmulo de Fontana, fundador do extinto Partido Socialista Português. Após a Implantação da República, alguns concelhos declaram o dia 1 de maio dia feriado.

4Segundo o Censo de 1878, Portugal teria 4 160 315 habitantes. O Inquérito Industrial de 1881 referia que a indústria dos tabacos empregava 4021 trabalhadores, o que representava uma grande importância na indústria nacional.

Sobre o/a autor(a)

Ativista contra a precariedade. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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