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Miguel Portas: A arte de traduzir

O Miguel era um grande tradutor. E como tradutor passou a sua vida a des-hierarquizar.

Não sou propriamente amigo do Miguel: sou um camarada próximo, que com ele partilhou dez anos de experiência de direcção política no Bloco e que por ele nutre afecto.

Ontem, na longa fila do velório, tentava perceber para além do óbvio: o que nele se liga ao nosso tempo e o torna de certa forma exemplar. E ocorreu-me um poema de Ferreira Gullar (também musicado e cantado por Fagner, Nara e Adriana), grande poeta brasileiro:

TRADUZIR-SE
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

O Miguel era um grande tradutor. E como tradutor passou a sua vida a des-hierarquizar. A des-hierarquizar culturas e a lutar contra o etnocentrismo, em particular na sua aproximação multiforme ao Mediterrâneo e ao Próximo Oriente (aproximação intelectual, política, analítica, mas também sensível, sensual, através dos odores, dos sabores, do tacto, da experiência vivida); a des-hierarquizar géneros e níveis, promovendo a mestiçagem e o hibridismo entre “artes maiores” (como a música clássica) e “artes menores” (é conhecida o seu amor pela banda desenhada), até um ponto em que essa distinção deixa de fazer sentido; a des-hierarquizar a pirâmide que desce do erudito, ao comercial e ao popular (e o seu gosto pelo novo fado ou pelo jazz aí estão para demonstrá-lo, bem como por certas manifestações pop e rock and roll); a des-hierarquizar os “mundos da vida”, fazendo incessantes pontes entre os seus vários papéis sociais (político, homem de cultura, pessoa de afectos…) e respectivos repertórios; a des-hierarquizar amizades e sociabilidades – e por isso era informal e simples nos relacionamentos.

A des-hierarquizar, enfim, as relações de poder e as desigualdades que estão na base das injustiças destes mundo – e por isso lutou politicamente até ao fim. Combate incessante.

Tradutor. Amador. Aquele que transporta, leva, dissemina. Aquele que ama, tentando. Tentando sempre.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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