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As palavras estão gastas

Na generalidade do discurso 'político” atual, as palavras foram desconsideradas, graças ao uso abusivo e à vulgarização, associados em tantos casos à mentira objetiva. Artigo de Nuno Casimiro.

Bruno Munari (Milão, 1907-1998) elaborou em determinado momento sobre os objetos gastos. A este respeito, sugeria o criador italiano que, em certos casos, a utilização de determinado objeto acabaria por redefinir a sua forma, tornando-a mais afim da função para a qual teria sido desenhada. O exemplo dado era uma colher de pau. À época nem a ASAE nem algumas diretivas comunitárias existiam, e nenhuma cozinha se consideraria completamente equipada sem acolher um número mínimo de colheres talhadas em madeira. Até o mais distraído conseguiria então observar o fenómeno para o qual alertava Munari: consequência do atrito entre o interior de tachos e panelas e a madeira da colher com que se mexe, esta adquire naturalmente uma silhueta diferente da inicial, acabando por ficar obliquamente amputada (melhorada).

Mas do mesmo modo que a realidade reformula a colher de pau, também esta adultera a outra pela sua ação, ao acrescentar ao cozinhado (quase impercetíveis) texturas e aromas. Passamos assim dos objetos gastos à realidade gasta, aquela cujos contornos são inevitavelmente polidos pela utilização continuada de determinadas horas e gestos. Cabe aos utilizadores perceber quando é que o objeto atingiu a forma mais perfeita e o ponto a partir do qual o desgaste começará a ser nefasto, altura em que uma solução mais eficaz e inteligente terá de ser encontrada.

Com as palavras acontece um fenómeno parecido: ajustam-se ao quotidiano redefinindo-se pela fricção de múltiplas falas e falantes. Também as palavras encontram no desgaste uma forma mais ajustada à utilização que lhes é reservada. Pode acontecer até que se tornem obsoletas, porque a realidade que designam se transformou sem remédio – o que faz com que, por exemplo, a Rua dos Caldeireiros seja hoje um “mero” endereço postal portuense e não o espaço privilegiado para encontrar alguém que repare caldeiras – ou porque a sua má utilização as deformou ao ponto de as esvaziar de sentido.

Sobre a segunda hipótese, cabe assinalar o discurso “político” atual como exemplo maior desta degradação: aqui as palavras foram desavergonhadamente desfiguradas e amputados os conceitos que identificavam. Na generalidade do discurso “político” atual, as palavras foram desconsideradas, graças ao uso abusivo e à vulgarização, associados em tantos casos à mentira objetiva. Em parte, porque esse discurso sucumbiu à lógica publicitária, que coisifica ideias já de si simples, para que não haja dúvidas nem equívocos na hora de comprar. Mas também por se integrar no quadro de uma generalizada recusa do confronto de ideias: com menos peças em jogo, o pensamento único é mais facilmente imposto.

Assim transformada a sociedade em grupo de consumidores de slogans, seriam os meios de comunicação de massas os instrumentos mais adequados para prevenir a descaracterização absoluta do que se diz ou escreve. Mas também aí se impregnou a “simplificação”, a uniformização que permite industrializar o consumo, reduzindo as possibilidades de livre arbítrio.

Cumpre-nos portanto, enquanto inevitáveis utilizadores das palavras, assumir afincadamente a missão de cuidar da sua manutenção, reciclagem ou mumificação.

Theo Angelopoulos, o cineasta grego que recentemente morreu atropelado em Atenas, recebeu em 1998 a Palma de Ouro do Festival de Cannes pelo filme “A eternidade e um dia”. Nesta obra, um poeta na fase terminal de uma doença mortal evoca Dyonisios Somos, o poeta grego que pagava palavras para construir o poema que mais tarde se tornou o hino nacional. Como quem encontra papéis perdidos, fotografias, amigos a que a distância retirara o calor do abraço, eis essas palavras tombadas pelo uso de outras e a que, quando a vida se escoa, o poeta do filme se agarra.

E se a ideia era atual em 1998, quando “A eternidade e um dia” foi apresentado, agora que o mundo corre ainda mais depressa, obrigando-nos a tudo dizer de forma pré-mastigada para rápida digestão e imediata excreção, talvez se imponha com ainda mais pertinência esse exercício de reativação da linguagem.

Voltemos então o espírito para o que é dito e escrito. Perscrutemos as palavras a apalpar-lhes descaradamente o sentido e voltemos a proferi-las com todas as letras, para que as formas polidas demonstrem o seu vigor sem que a verdade ou a eficiência se dissolvam em nada. Comecemos por uma grega e antiga: democracia.

 

* a Theo Angelopoulos, poeta.

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