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Günter Grass: O poema da controvérsia

Um poema do prémio Nobel alemão causou enorme polémica na Alemanha, na Europa e em Israel ao criticar o seu próprio país por vender mais um submarino a Israel, com capacidade nuclear. Por Flávio Aguiar, de Berlim, para a Carta Maior
Para o escritor quem certamente tem armas nucleares propõe-se atacar quem apenas se supõe estar a construir uma, sem se ter ainda prova cabal disso. Fotografia wikimedia commons por Florian K

Berlim - O escritor alemão e prémio Nobel de literatura (1999) Günter Grass causou enorme polémica na Alemanha, na Europa e em Israel publicando, na semana passada, o poema abaixo em vários jornais europeus. O poema critica o seu próprio país por vender mais um submarino a Israel, com capacidade para lançar mísseis armados até com ogivas nucleares. Critica o governo israelita "por ameaçar a já frágil paz mundial" com a possibilidade de um ataque ao Irão, por este supostamente estar a preparar um arsenal nuclear.

Para o escritor quem certamente tem armas nucleares propõe-se atacar quem apenas se supõe estar a construir uma, sem se ter ainda prova cabal disso. Além disso, Günter Grass (autor, dentre outros, do romance "Die Blechtrommel", "O tambor de lata" - que também deu origem a um filme) critica o seu próprio silêncio sobre o tema esse tempo todo, atribuindo-o a um sentimento de culpa que permanece na cultura de seu país (culpa que ele considera justificada). Ao final, o poema diz que ambos os países deveriam colocar suas atividades nucleares sob supervisão da ONU.

O poema caiu como uma bomba em diferentes meios. Primeiro, na própria Alemanha, onde criticar qualquer coisa a respeito de Israel é (compreensivelmente) tabu.

Os média liberais rejeitaram o poema e as suas críticas. Houve até quem chamasse Günter Grass (hoje com 84 anos) de "velho senil" querendo chamar a atenção. Muitos representantes de associações judaicas também criticaram veementemente o poema. Günter foi acusado de antissemita, e outras críticas interpretaram que seu poema fortalecia Ahmadinejad, os ayatollahs e o Irão, comparando-o, "equivocadamente", a Israel. Outros consideraram o poema um equívoco do ponto de vista literário.

Mas houve quem saísse em sua defesa também. Escritores, artistas e membros do establishment cultural alemão rejeitaram a acusação de antissemitismo, lembrando que Grass sempre se posicionou favoravelmente à existência de Israel (algo que fica também implícito no próprio poema). Ainda houve também quem dissesse que o poema era exagerado (sobretudo ao dizer que Israel poderia exterminar o povo iraniano), mas que levantava um assunto que era preciso debater.

Os partidos políticos não se pronunciaram oficialmente. Porém, em geral, os políticos do Die Linke aprovaram a atitude de Grass. Os do SPD dividiram-se, uns apoiando Grass, outros criticando. Isso é muito relevante, porque Grass sempre foi a favor do SPD. Muitos do Partido Verde criticaram o poema, mas deixaram claro que não endossavam a acusação de antissemitismo.

Para engrossar o caldo, o governo israelita declarou o escritorpersona non grata em Israel, o que, na prática, barra a sua entrada no país (que ele visitou muitas vezes). Vozes do governo de Tel Aviv ergueram-se denunciando que Grass, na Guerra, pertencera à famigerada SS. É verdade que o próprio Grass reconheceu esse facto. Mas a história completa é a de que ele, aos 17 anos, quis alistar-se na Marinha alemã para lutar. Aparentemente rejeitado, foi parar a um regimento blindado das SS-Waffen, na frente de batalha. Ferido, foi feito prisioneiro num campo de concentração norte-americano. Ao mesmo tempo, políticos e escritores israelitas criticaram o seu próprio governo. Muitos disseram que o governo, em dificuldades, estava a fazer uma campanha populista aproveitando o poema de Grass, e que era um absurdo barrar a sua entrada, o que "igualava Israel aos regimes totalitários, inclusive o Irão".

Na Alemanha, a atitude do governo de Tel Aviv também mereceu críticas por parte dos mesmos média que atacaram o poema, considerando a proibição de "exagerada".

A polémica vai continuar, porque, de facto, Günter Grass pôs um dedo na ferida, uma ferida de muitas camadas, que remonta ao holocausto, ao silêncio sobre o holocausto depois da guerra, aos levantamentos de 68 (que, na Alemanha, levantaram o questionamento às gerações mais antigas - "onde você estava e o que fez durante o nazismo?"), e também ao silêncio posterior diante das atitudes belicistas dos governos israelitas, em particular o último, de Benjamin Netanyahu.

O próprio Grass veio a público dizer que continuava sustentando o poema, mas que talvez devesse tê-lo escrito deixando mais claro que o seu alvo era o governo do atual primeiro-ministro, e não Israel como um todo.

Leia abaixo quatro versões do poema, em espanhol, inglês, o original em alemão e em português.

 

Lo que hay que decir

 

Por qué guardo silencio, demasiado tiempo,

sobre lo que es manifiesto y se utilizaba

en juegos de guerra a cuyo final, supervivientes,

solo acabamos como notas a pie de página.

 

Es el supuesto derecho a un ataque preventivo

el que podría exterminar al pueblo iraní,

subyugado y conducido al júbilo organizado

por un fanfarrón,

porque en su jurisdicción se sospecha

la fabricación de una bomba atómica.

 

Pero ¿por qué me prohíbo nombrar

a ese otro país en el que

desde hace años –aunque mantenido en secreto–

se dispone de un creciente potencial nuclear,

fuera de control, ya que

es inaccesible a toda inspección?

 

El silencio general sobre ese hecho,

al que se ha sometido mi propio silencio,

lo siento como gravosa mentira

y coacción que amenaza castigar

en cuanto no se respeta;

“antisemitismo” se llama la condena.

 

Ahora, sin embargo, porque mi país,

alcanzado y llamado a capítulo una y otra vez

por crímenes muy propios

sin parangón alguno,

de nuevo y de forma rutinaria, aunque

enseguida calificada de reparación,

va a entregar a Israel otro submarino cuya especialidad

es dirigir ojivas aniquiladoras

hacia donde no se ha probado

la existencia de una sola bomba,

aunque se quiera aportar como prueba el temor...

digo lo que hay que decir.

 

¿Por qué he callado hasta ahora?

Porque creía que mi origen,

marcado por un estigma imborrable,

me prohibía atribuir ese hecho, como evidente,

al país de Israel, al que estoy unido

y quiero seguir estándolo.

 

¿Por qué solo ahora lo digo,

envejecido y con mi última tinta:

Israel, potencia nuclear, pone en peligro

una paz mundial ya de por sí quebradiza?

 

Porque hay que decir

lo que mañana podría ser demasiado tarde,

y porque –suficientemente incriminados como alemanes–

podríamos ser cómplices de un crimen

que es previsible, por lo que nuestra parte de culpa

no podría extinguirse

con ninguna de las excusas habituales.

 

Lo admito: no sigo callando

porque estoy harto

de la hipocresía de Occidente; cabe esperar además

que muchos se liberen del silencio, exijan

al causante de ese peligro visible que renuncie

al uso de la fuerza e insistan también

en que los gobiernos de ambos países permitan

el control permanente y sin trabas

por una instancia internacional

del potencial nuclear israelí

y de las instalaciones nucleares iraníes.

 

Sólo así podremos ayudar a todos, israelíes y palestinos,

más aún, a todos los seres humanos que en esa región

ocupada por la demencia

viven enemistados codo con codo,

odiándose mutuamente,

y en definitiva también ayudarnos.

 

Fonte: El País, 4 de abril de 2012

Tradução de Miguel Sáenz

 

What Must Be Said

 

Why do I stay silent, conceal for too long

What clearly is and has been

Practiced in war games, at the end of which we as survivors

Are at best footnotes.

 

It is the alleged right to first strike

That could annihilate the Iranian people--

Enslaved by a loud-mouth

And guided to organized jubilation--

Because in their territory,

It is suspected, a bomb is being built.

 

Yet why do I forbid myself

To name that other country

In which, for years, even if secretly,

There has been a growing nuclear potential at hand

But beyond control, because no inspection is available?

 

The universal concealment of these facts,

To which my silence subordinated itself,

I sense as incriminating lies

And force--the punishment is promised

As soon as it is ignored;

The verdict of "anti-Semitism" is familiar.

 

Now, though, because in my country

Which from time to time has sought and confronted

Its very own crime

That is without compare

In turn on a purely commercial basis, if also

With nimble lips calling it a reparation, declares

A further U-boat should be delivered to Israel,

Whose specialty consists of guiding all-destroying warheads to where the existence

Of a single atomic bomb is unproven,

But as a fear wishes to be conclusive,

I say what must be said.

 

Why though have I stayed silent until now?

Because I thought my origin,

Afflicted by a stain never to be expunged

Kept the state of Israel, to which I am bound

And wish to stay bound,

From accepting this fact as pronounced truth.

 

Why do I say only now,

Aged and with my last ink,

That the nuclear power of Israel endangers

The already fragile world peace?

Because it must be said

What even tomorrow may be too late to say;

Also because we--as Germans burdened enough--

Could be the suppliers to a crime

That is foreseeable, wherefore our complicity

Could not be redeemed through any of the usual excuses.

 

And granted: I am silent no longer

Because I am tired of the hypocrisy

Of the West; in addition to which it is to be hoped

That this will free many from silence,

That they may prompt the perpetrator of the recognized danger

To renounce violence and

Likewise insist

That an unhindered and permanent control

Of the Israeli nuclear potential

And the Iranian nuclear sites

Be authorized through an international agency

By the governments of both countries.

 

Only this way are all, the Israelis and Palestinians,

Even more, all people, that in this

Region occupied by mania

Live cheek by jowl among enemies,

And also us, to be helped.

 

Was gesagt werden muss

 

Warum schweige ich, verschweige zu lange,

was offensichtlich ist und in Planspielen

geübt wurde, an deren Ende als Überlebende

wir allenfalls Fußnoten sind.

 

Es ist das behauptete Recht auf den Erstschlag,

der das von einem Maulhelden unterjochte

und zum organisierten Jubel gelenkte

iranische Volk auslöschen könnte,

weil in dessen Machtbereich der Bau

einer Atombombe vermutet wird.

 

Doch warum untersage ich mir,

jenes andere Land beim Namen zu nennen,

in dem seit Jahren - wenn auch geheimgehalten -

ein wachsend nukleares Potential verfügbar

aber außer Kontrolle, weil keiner Prüfung

zugänglich ist?

 

Das allgemeine Verschweigen dieses Tatbestandes,

dem sich mein Schweigen untergeordnet hat,

empfinde ich als belastende Lüge

und Zwang, der Strafe in Aussicht stellt,

sobald er mißachtet wird;

das Verdikt "Antisemitismus" ist geläufig.

Jetzt aber, weil aus meinem Land,

das von ureigenen Verbrechen,

die ohne Vergleich sind,

Mal um Mal eingeholt und zur Rede gestellt wird,

wiederum und rein geschäftsmäßig, wenn auch

mit flinker Lippe als Wiedergutmachung deklariert,

ein weiteres U-Boot nach Israel

geliefert werden soll, dessen Spezialität

darin besteht, allesvernichtende Sprengköpfe

dorthin lenken zu können, wo die Existenz

einer einzigen Atombombe unbewiesen ist,

doch als Befürchtung von Beweiskraft sein will,

sage ich, was gesagt werden muß.

 

Warum aber schwieg ich bislang?

Weil ich meinte, meine Herkunft,

die von nie zu tilgendem Makel behaftet ist,

verbiete, diese Tatsache als ausgesprochene Wahrheit

dem Land Israel, dem ich verbunden bin

und bleiben will, zuzumuten.

 

Warum sage ich jetzt erst,

gealtert und mit letzter Tinte:

Die Atommacht Israel gefährdet

den ohnehin brüchigen Weltfrieden?

Weil gesagt werden muß,

was schon morgen zu spät sein könnte;

auch weil wir - als Deutsche belastet genug -

Zulieferer eines Verbrechens werden könnten,

das voraussehbar ist, weshalb unsere Mitschuld

durch keine der üblichen Ausreden

zu tilgen wäre.

 

Und zugegeben: ich schweige nicht mehr,

weil ich der Heuchelei des Westens

überdrüssig bin; zudem ist zu hoffen,

es mögen sich viele vom Schweigen befreien,

den Verursacher der erkennbaren Gefahr

zum Verzicht auf Gewalt auffordern und

gleichfalls darauf bestehen,

daß eine unbehinderte und permanente Kontrolle

des israelischen atomaren Potentials

und der iranischen Atomanlagen

durch eine internationale Instanz

von den Regierungen beider Länder zugelassen wird.

 

Nur so ist allen, den Israelis und Palästinensern,

mehr noch, allen Menschen, die in dieser

vom Wahn okkupierten Region

dicht bei dicht verfeindet leben

und letztlich auch uns zu helfen.

 

Fonte: Süddeutsche Zeitung, 4 de abril de 2012

Posted Yesterday by César Vásquez

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O que deve ser dito

 

Porque guardo silêncio há demasiado tempo

sobre o que é manifesto

e se utilizava em jogos de guerra

em que no fim, nós sobreviventes,

acabamos como meras notas de rodapé.

 

É o suposto direito a um ataque preventivo,

que poderá exterminar o povo iraniano,

conduzido ao júbilo

e organizado por um fanfarrão,

porque na sua jurisdição se suspeita

do fabrico de uma bomba atômica.

 

Mas por que me proibiram de falar

sobre esse outro país [Israel], onde há anos

- ainda que mantido em segredo –

se dispõe de um crescente potencial nuclear,

que não está sujeito a nenhum controle,

pois é inacessível a inspeções?

 

O silêncio geral sobre esse fato,

a que se sujeitou o meu próprio silêncio,

sinto-o como uma gravosa mentira

e coação que ameaça castigar

quando não é respeitada:

“antissemitismo” se chama a condenação.

 

Agora, contudo, porque o meu país,

acusado uma e outra vez, rotineiramente,

de crimes muito próprios,

sem quaisquer precedentes,

vai entregar a Israel outro submarino

cuja especialidade é dirigir ogivas aniquiladoras

para onde não ficou provada

a existência de uma única bomba,

se bem que se queira instituir o medo como prova… digo o que deve ser dito.

 

Por que me calei até agora?

 

Porque acreditava que a minha origem,

marcada por um estigma inapagável,

me impedia de atribuir esse fato, como evidente,

ao país de Israel, ao qual estou unido

e quero continuar a estar.

 

Por que motivo só agora digo,

já velho e com a minha última tinta,

que Israel, potência nuclear, coloca em perigo

uma paz mundial já de si frágil?

 

Porque deve ser dito

aquilo que amanhã poderá ser demasiado tarde [a dizer],

e porque – já suficientemente incriminados como alemães –

poderíamos ser cúmplices de um crime

que é previsível,

pelo que a nossa cota-parte de culpa

não poderia extinguir-se

com nenhuma das desculpas habituais.

 

Admito-o: não vou continuar a calar-me

porque estou farto

da hipocrisia do Ocidente;

é de esperar, além disso,

que muitos se libertem do silêncio,

exijam ao causador desse perigo visível

que renuncie ao uso da força

e insistam também para que os governos

de ambos os países permitam

o controle permanente e sem entraves,

por parte de uma instância internacional,

do potencial nuclear israelense

e das instalações nucleares iranianas.

 

Só assim poderemos ajudar todos,

israelenses e palestinos,

mas também todos os seres humanos

que nessa região ocupada pela demência

vivem em conflito lado a lado,

odiando-se mutuamente,

e decididamente ajudar-nos também.

Tradução para o português: Baby Siqueira Abrão

Publicado na Carta Maior

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