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O caso Rubem Fonseca

A obra de Rubem Fonseca não é “apenas” literatura: é um corpo voluptuoso em que as palavras são bastante mais do que utensílios de nomear. Por Nuno Casimiro
Rubem Fonseca na Póvoa de Varzim

Quando, em 2003, Rubem Fonseca foi galardoado com o Prémio Camões, uma pequena multidão de fanáticos exultou por ver o mestre reconhecido. Quase dez anos depois, na primeira vinda às Correntes de Escrita, na Póvoa de Varzim, o escritor recebeu o Prémio Casino da Póvoa pelo livro “Bufo e Spallanzani”, publicado no Brasil em 1986, mas apenas distribuído em Portugal no ano passado.

De novo uma contida turba de fiéis se lançou na celebração do autor.

Rubem Fonseca merece todos os prémios e graças que lhe concedam porque consegue fazer com que as palavras (e a forma como se ajeitam umas com as outras) deixem de ser apenas um veículo para descrever algo, para se transformarem elas próprias em matéria com transcendência. Dito de outra forma, a obra de Rubem Fonseca não é “apenas” literatura: é um corpo voluptuoso em que as palavras são bastante mais do que utensílios de nomear.

Os seus livros são feitos de homens e mulheres que são paisagens complexas. Deles ressumam vícios e virtudes, Periquita e cachaça sem qualidades, o sexo, o suor e o sangue como elementos dramáticos da narrativa. Neles vive um mesmo país com tantos mundos quantos os que cabem no Brasil: dos bairros mais pobres aos universos exclusivos de quem tudo pode pagar. E a unir tamanha distância, os recessos da natureza humana, descrita sem escrúpulos nem ostentações. Seja nos contos, em que a mais rocambolesca aventura pode ser concentrada nas tensões e perversões de umas quantas personagens de pouquíssimas páginas de altura, seja nos romances mais complexos, em que as figuras da história do Brasil contemporâneo sucumbem às suas desgraças pessoais.

Dizem que escreve policiais. Talvez porque há sempre nas suas histórias alguma intriga de morte, algum crime em potência. Mas como qualquer categorização, também essa é redutora e, talvez por isso, a horda de seguidores seja limitada. Porque tudo o que não seja catalogado simplesmente como “romance” parece logo ser um objecto menos atraente e porque tudo o que é escrito no português swingante do Brasil parece resultar ainda mais extravagante no triste panorama livreiro português. Talvez por isso Rubem Fonseca é, no cada vez mais reduzido universo dos que lêem, um fenómeno de culto num circuito ainda mais limitado. E, no entanto, Rubem Fonseca não escreve: antes nos oferece o português renovado e brilhante que só a pura criação permite.

Fica, por isso, um pequeno guia para a perdição, um mapa do tesouro em formato de bibliografia básica – entre romances e contos – distribuída em Portugal:

O caso Morel (1973)

A grande arte (1983)

Bufo & Spallanzani (1986)

Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (1988)

Agosto (1990)

Diário de um fescenino (2003)

O Seminarista (2009)

A coleira do cão (1965)

Romance negro e outras histórias (1992)

O buraco na parede (1995)

Histórias de amor (1997)

A confraria dos espadas (1998)

Secreções, excreções e desatinos (2001)

Ela e outras mulheres (2006)

NOTA: a obra de Rubem Fonseca foi sendo parcialmente distribuída em Portugal pela mão de diferentes editoras, Edições 70, Círculo de Leitores, Asa, D. Quixote e, principalmente, a extinta Campo das Letras. A editora Sextante adquiriu recentemente os direitos para a publicação em Portugal de todos os seus livros, tendo já iniciado a reedição de alguns títulos acima indicados.

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