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O olhar da última fila

Os Artistas Unidos levam à cena a peça de um extraordinário dramaturgo espanhol que fala sobre professores e discípulos, sobre o prazer de intrometer-se nas vidas alheias, e sobre os riscos de confundir a vida com a literatura.
A estreia do jovem Pedro Gabriel Marques é segura e empolgante. Foto de divulgação dos Artistas Unidos

Quem sempre se senta na última fila da sala de aula não são só os maus alunos ou os malandros, como muitos pensam. “A última fila é aquela de onde se vê todos os outros sem se ser visto – é a fila do escritor, do artista”, diz o dramaturgo espanhol Juan Mayorga. E é justamente este o ponto de vista em que o autor nos coloca nesta surpreendente peça que os Artistas Unidos levam à cena no Teatro da Politécnica em Lisboa.

É desta última fila que observamos e penetramos no universo de uma típica família de classe média: o pai executivo de uma empresa que tem relações privilegiadas com os chineses, a mãe, grande consumidora de revistas de decoração, que só pensa nas obras que fará na casa para se entreter, o filho que adora jogar basquetebol com o pai e tem grandes dificuldades a Matemática.

É também deste ponto de vista que acompanhamos a relação entre o professor de literatura e o aluno que o surpreende com um talento fora de comum para a escrita. Um talento que o professor sabe reconhecer – e até invejar. Desta relação nasce uma cumplicidade perigosa, porque o romance que o aluno escreve em curtos capítulos é na verdade a história da sua bem programada intromissão na vida da tal família, que é a de um seu colega de quem se aproxima sob o pretexto de ajudá-lo a estudar matemática.

Na verdade, os nossos olhos são em grande parte os deste rapaz da última fila, este rapaz que vê muita coisa mas do qual pouco ou nada sabemos, além de que tem muita facilidade para a matemática e é um escritor talentoso.

Os riscos de confundir a vida com a literatura

Segundo Juan Mayorga, trata-se de uma peça “sobre professores e discípulos, sobre pessoas que já viram demasiado e pessoas que estão a aprender a ver. Uma obra sobre o prazer de intrometer-se nas vidas alheias e sobre os riscos de confundir a vida com a literatura”.

Mayorga é licenciado em matemática e filosofia, deu aulas de matemática e doutorou-se em filosofia. Atualmente dá aulas de Dramaturgia e de Filosofía na Real Escola Superior de Arte Dramática de Madrid. Nascido em 1965, é autor de uma vasta obra teatral, e as suas peças já foram traduzidas para mais de 20 línguas e encenadas em mais de 20 países. Ganhou inúmeros prémios, entre eles o Prémio Nacional de Teatro de Espanha em 2007.

A encenação dos Artistas Unidos (assinada pelo coletivo) chama a atenção pelo cenário simples e eficaz e pela qualidade do elenco. E também pela extraordinária estreia do jovem Pedro Gabriel Marques, ainda estudante de teatro e já protagonista de uma atuação segura e empolgante no papel principal.

Infelizmente, a peça está em cartaz só até dia 14 de abril – mas ainda pode ser vista nesta semana, de quarta a sábado. A não perder.

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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