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29-M em Euskal Herria: Greve a 100%

O ponto culminante foi dado pelas manifestações (ao meio dia e a meio da tarde): Nunca antes uma greve geral tinha gerado a enorme maré humana que passou pelas quatro capitais de Euskal Herria (País Basco). Por Josu Egireun
Manifestação em Bilbau - Foto de labsindikatua.org

Euskal Herria viveu uma jornada de Greve Geral total no sentido literal da palavra, uma greve a 100%. Foi residual o sector de trabalhadores que trabalharam e os 30% de serviços mínimos impostos pelos diferentes governos, tampouco permitiram dar a imagem de normalidade que desejavam. Mais ainda, no sector dos transportes, onde os quadros de pessoal afetados circulavam anunciando que “Estamos em greve – serviços mínimos”. Só a Banca apresentava certa atividade de portas adentro, porque os estabelecimentos permaneciam fechados ao público.

A valorização, no termo da ação, dos piquetes nas distintas comarcas e nas quatro capitais era muito partilhada: há que retroceder a 1988 (a histórica greve contra o Plano de Emprego Jovem) para recordar uma participação tão grande. Foi significativo, porque constituem referências importantes, o fecho total da WV em Navarra, da Mercedes Benz em Vitória, a CAF de Beasain, a Naval de Bizcaia ou o Grupo Cooperativo Mondragón no Alto Deba.

Esta greve, além disso, contou com uma amplíssima participação do comércio (bares, mercearias, grandes armazéns, etc). Um dado significativo é que o El Corte Inglês de Bilbau – emblemático bastião anti-greves – nem sequer pôde abrir porque o quadro de pessoal saiu maioritariamente para a greve; um outro, é que os piquetes tiveram pouco trabalho: encontraram a maioria do comércio e das empresas encerradas.

O ponto culminantefoi dado pelas manifestações (ao meio dia e a meio da tarde). Não só foram importantes pelo número de pessoas que juntaram (nunca antes uma greve geral tinha gerado a enorme maré humana que passou pelas quatro capitais de Euskal Herria) como pela componente – poderia dizer-se maioritária – de gente jovem nestas manifestações e também nos piquetes. Um dado relevante e de esperança.

Sem dúvida, um dos elementos que permitiu alcançar este grau de mobilização (além da enorme crise social em que estamos imersos e em acorrentamentos eagressões sucessivas) é a convergência das convocatórias de todos no espectro sindical, se bem que em convocatórias diferenciadas. Há que recordar que o que se denomina como maioria sindical basca, ELA, LAB, ESK, STEE-EILAS, EHNE e HIRU, que desde 2009 protagonizou 3 greves gerais, respondeu a 17 de Fevereiro à contra-reforma de Rajoy, convocando a greve geral para o 29 de Março, incorporando à mesma, um amplo leque de movimentos sociais com os quais, em 25 de Fevereiro, impulsionou uma mobilização nacional bem sucedida contra os cortes sociais do governo da Comunidade Autónoma do País Basco (CAPV) e do governo de Navarra.

CC OO (Comisiones Obreras) e UGT que, quatro dias antes do decreto de Rajoy, procuravam chegar um acordo de negociação coletiva, que além de contemplar a prática do congelamento de salários, participava do discurso de que, para sair da crise, há que incrementar a competitividade das empresas e para tal avançar, entre outras coisas, com a flexibilidade geográfica, funcional e salarial e continuavam enredados num inútil diálogo social, apenas decidiram mobilizar contra esta reforma a 09 de Março.

Estes dois elementos, a incorporação dos movimentos sociais à unidade sindical e que CC OO e UGT convocassem a greve no mesmo dia, estiveram na base do amplíssimoconsenso social que permitiu alcançar uma greve tão contundente. E, sem dúvida, também influiu muito positivamente, que todas as forças políticas que compõem a coligação Amaiur apelassem à participação na mesma, para que a maioria do Parlamento de Navarra decidisse fazer greve neste dia ou que inclusive o PSE-EE (PS basco) se posicionasse a seu favor.

Para além do êxito desta greve, não pode ocultar o lastro que arrastamosapós anos de derrota e de dificuldades em levantar a cabeça. A mais importante, a dinâmica ao nível de empresa, onde ainda são raras as empresas em que se impulsionam assembleias do quadro de pessoal ou que, como em 1998, a greve geral venha precedida de uma dinâmica de mobilização, ao nível local e de comarca, com assembleias públicas seguidas de mobilizações.

Depois da jornada de mobilização, esta greve abre também a pergunta sobre o dia seguinte. Parece claro que CC OO e UGT não perseguem outro objetivo que não seja reabrir o diálogo social com o governo. Perspetiva bastante alheada da maioria sindical basca, para quem esta reforma não é negociável: só há lugar à sua retirada. Entretanto, construir um muro de contestação social contra as mesmas e contra as políticas de austeridade, provenham elas do governo, do patronato ou de acordos como os assinados por CC OO e UGT (pacto de pensões, pacto de negociação coletiva…).

Fica por definir em que se vai concretizar esta dinâmica de confrontação que terá que responder também ao “vazio” que se cria entre greve geral e greve geral; esse dia-a-dia onde se definem as relações de força e onde existem enormes dificuldades para travar as agressões do patronato.

Por último, para a maioria sindical basca, a mobilização de hoje foi também o momento de reclamar com mais força, se possível, um marco basco de relações laborais. “Vivemos aqui, trabalhamos aqui, temos que decidir aqui”. Uma reivindicação que, dada a configuração do movimento sindical e político deste país, adquire cada vez mais importância.

29/03/2012

Artigo de Josu Egireun, membro da Redação de Viento Sur. Tradução de Cristina Barros para esquerda.net

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