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O Complexo Industrial do Branco Salvador

Se nos vamos imiscuir na vida dos outros, um bocadinho de zelo é o mínimo que se exige. Há uma semana e meia, vi o vídeo Kony 2012. De seguida, escrevi uma resposta curta em sete partes que postei, sequencialmente, no Twitter. Por Teju Cole.
À esquerda, Jason Russell da Invisible Children. À direita um líder dos protestos em Lagos, Nigéria.

1- De Sachs a Kristof a Invisible Children a TED, a indústria em maior crescimento nos EUA é o Complexo Industrial do Branco Salvador.

2- O branco salvador apoia políticas brutais de manhã, funda instituições de solidariedade social à tarde e recebe galardões à noite.

3- A banalidade do mal transmuta-se na banalidade do sentimentalismo. O mundo não passa de um problema que se pode resolver através do entusiasmo.

4- Este mundo existe apenas para satisfazer as necessidades – incluindo, com destaque, as necessidades emotivas – das pessoas brancas e da Oprah.

5- O Complexo Industrial do Branco Salvador não tem a ver com justiça. Trata-se de uma grande experiência emocional que legitima o privilégio.

6- Preocupação febril com aquele horrível senhor da guerra africano. Mas, perto de 1.5 milhões de iraquianos morreram por causa de uma guerra querida à América. Preocupem-se com isso.

7- Respeito profundamente o sentimentalismo americano, do mesmo modo que se respeita um hipopótamo ferido. Tem que se ter o bicho debaixo de olho, porque sabemos que pode ser letal.

Estes tweets foram reproduzidos, reencaminhados e amplamente partilhados pelos leitores. Migraram para além do Twitter até blogues, Tumblr, Facebook e outros sites; dizem-me que deram origem a debates acesos. À medida que os dias passaram, os tweets foram reproduzidos na íntegra nas edições on-line da Atlantice do New York Timese apareceram em sites alemães, espanhóis e portugueses. Um amigo enviou-me um e-mail a dizer-me que o quarto tweet, que afoitamente nomeia a Oprah, foi mencionado na Fox.

Estas minhas frases, escritas sem grande premeditação, tinham tocado uma corda sensível. Recebi reações de pessoas que me agradeciam tê-las lido. Recebi reações de muitas outras que estavam desiludidas ou furiosas. Muitas pessoas, demasiadas para se poder contar, chamaram-me racista. Uma pessoa comparou-me aos Mau Mau. O articulista da Atlantic, que as reproduziu, embora concordando comigo em traços gerais, descrevia a linguagem utilizada como a do “ressentimento”.

Este fim de semana ouvi uma entrevista dada pelo jornalista Nicholas Kristof, vencedor do Prémio Pulitzer. Kristof é mais conhecido pela coluna regular que mantém no New York Times em que dá conta do seu próprio ativismo e o de outros ocidentais. Quando vi o vídeo Kony 2012 achei-o semelhante em tom à abordagem de Kristof e, por isso, mencionei-o no primeiro dos meus sete tweets.

Aqueles tweets, embora não premeditados, eram intencionais em termos de ironia e seriedade. Não os escrevi para marcar pontos fáceis, muito menos para ferir os sentimentos fosse de quem fosse. Acreditava que um certo tipo de linguagem só muito esporadicamente aparece no nosso discurso público. Sou um romancista. O meu negócio são as subtilezas e o meu objetivo ao escrever um romance é deixar o leitor a não saber o que pensar. Um bom romance não deve ter uma razão.

Mas há lugar na esfera da política para o discurso da ação direta e, nos últimos anos nos EUA, tem-se sentido um efeito paralisante num certo tipo de discurso sobre os direitos. O presidente teme ser visto como um “negro zangado”. As pessoas de cor, as mulheres, os homossexuais – que têm hoje, mais do que nunca, acesso a centros de influência – estão debaixo de pressão para serem bem comportados, quando falam sobre as suas lutas. Espera-se que possamos falar de pecados sem que os pecadores sejam identificados: os jornais adoram descrever palavras ou atos como tendo “contornos raciais” mesmo nos casos em que seria muito mais honesto falar de “racismo”; concordamos que há uma misoginia galopante mas não há misóginos à vista; a homofobia é um problema mas ninguém é homofóbico.

Um efeito acumulado desta linguagem policiada é que, quando alguém se atreve a apontar o dedo a uma coisa tão óbvia como o privilégio branco, isto é visto como desnecessariamente provocador. As vozes marginalizadas da América têm cada vez menos canais para falar claro sobre aquilo que sofrem; o efeito desta civilidade obrigatória é que essas vozes são desvirtuadas ou totalmente bloqueadas do discurso.

É só no contexto desta linguagem esterilizada que os meus tweets inofensivos podem ser vistos como extremistas. A entrevistadora no programa de rádio que eu ouvi, perguntou a Kristof se ele já tinha ouvido falar em mim. “Claro que sim.” disse ele. Perguntou-lhe o que pensava das minhas críticas. A resposta foi pensada e afável mas o que ele disse preocupou-me mais do que se tivesse tido uma explosão de raiva:

Tem havido, neste caso, um desconforto visível e reação entre africanos cultos de classe média, particularmente ugandeses, mas também entre outras pessoas, ao verem a África, segundo eles, a ser definida por um senhor da guerra que comete brutalidades, bem como a perceção de que os americanos vão aparecer montados num cavalo branco e resolver o assunto. Mas eu sinto-me ainda mais desconfortável ao pensar que, nós, americanos brancos, não devemos intervir num desastre humanitário porque as vítimas são de uma cor diferente.

Aqui estão alguns dos “africanos cultos de classe média” com que Kristof resolveu implicar, independentemente de os conhecer a todos e ao seu trabalho: a jornalista ugandesa Rosebell Kagumire, que fez a cobertura do Exército de Resistência do Senhor em 2005 e realizou um eloquente vídeo de resposta a Kony 2012; o académico ugandês Mahmood Mamdani, um dos mais proeminentes especialistas internacionais sobre o Uganda e autor de uma resposta exaustiva à cegueira política da ONG Invisible Children e o romancista etíope-americano Dinaw Mengestu, que se encontrou com Joseph Kony e os seus lugares-tenentes e que, recentemente, escreveu um ensaio brilhante sobre as incorreções de Kony 2012. Todos eles têm uma perceção diferente daquilo que Kristof apelida de “desastre humanitário” e isso pode-se dever ao facto de prestarem atenção aos desastres maiores que estão por detrás destes: a militarização de países mais pobres, as políticas agrícolas de vistas curtas, a extração de recursos, a instalação de governos corruptos e a extraordinária complexidade de conflitos de longa data em torno de uma área geográfica extensa e variada.

Chegado aqui, tenho de ser cuidadoso. Não estou a acusar Kristof de racismo, nem acredito que ele seja, de algum modo, racista. Não tenho dúvidas de que ele tem bom coração. Ao ouvi-lo na rádio, dei por mim a pensar que poderíamos até passar uma esponja por cima da coisa, à volta de umas cervejas. Mas é isso, precisamente, que me preocupa. É isso que me fez comparar o sentimentalismo americano a um “hipopótamo ferido”. O bom coração nem sempre lhe permite pensar em constelação. Não consegue estabelecer ligações nem identificar padrões de poder por trás dos “desastres” isolados.

A única coisa que consegue ver são as bocas esfomeadas e, através do ativismo jornalístico, ele a pôr-lhes comida na boca o mais rapidamente possível. A única coisa que vê é a necessidade, e não vê necessidade de problematizar a necessidade desta necessidade.

Mas eu discordo da abordagem feita pela ONG Invisible Children, em particular e pelo Complexo Industrial Branco Salvador, em geral, porque fazer o bem é muito mais do que “fazer a diferença”. Há, antes disso, que não fazer o mal. Há que, antes de ajudar, ouvir aqueles que vão ser envolvidos.

Escrevo tudo isto a partir de múltiplas posições. Escrevo como africano, como homem negro a viver na América. Sou, diariamente, sujeito às muitas microagressões do racismo americano. Também escrevo como americano, no pleno gozo dos muitos privilégios que um passaporte americano confere e que a residência neste país torna possível.

Estou empenhado na crítica ao privilégio: os meus próprios privilégios de classe, género e sexualidade não são suficientemente analisados. O meu telemóvel foi provavelmente manufaturado por trabalhadores mal tratados de uma fábrica chinesa. O coltan de que é feito veio do Congo, assolado pela guerra.

Não faço de conta que não estou implicado nestas redes transnacionais de práticas opressoras.

E, sobre isto escrevo, também, enquanto romancista e escritor: sou sensível ao poder das narrativas.

Quando Jason Russel, narrador do vídeo Kony 2012 mostra ao filho pequeno, alegre e louro, uma fotografia de Joseph Kony como a personificação do mal (um homem taciturno e escuro) e o seu amigo Jacob como o representante do desamparo (um africano de rosto doce), interrogo-me sobre o modo como o pequenito poderá desenvolver uma consciência subtil, relativamente as vidas alheias, sobretudo às das pessoas de raça diferente.

Como é que aquele rapazinho virá a perceber que os outros têm autonomia, que o seu direito à vida não exclui o direito ao amor-próprio? Num contexto diferente, John Berger escreveu um dia, “Um cantor pode estar inocente, mas a canção nunca é inocente.”

Uma cantilena que ouvimos demasiadas vezes é aquela em que a África serve de cenário a brancas fantasias de conquista e heroísmo. Do projeto colonial até África Minha, O Fiel Jardineiroe Kony 2012, a África tem fornecido um espaço em que os egos brancos se podem, convenientemente, projetar. É um espaço liberto em que as regras habituais não se aplicam: um zé-ninguém da América ou da Europa pode ir para África e tornar-se um salvador demiurgo, ou, pelo menos, ver satisfeitas as suas necessidades emocionais.

Muitos fizeram-no a pretexto de “fazer a diferença”. Afirmar esta verdade óbvia e confirmada não faz de mim um racista ou um Mau Mau. Denuncia-me, contudo, como “africano culto de classe média” e só me resta admitir a culpa. (Vale a pena notar que há outros africanos cultos de classe média que veem esta questão de um modo diferente. É o que as pessoas, as cultas e as outras, fazem: avaliam a informação disponível e às vezes discordam umas das outras.

Seja como for, Kristof e eu concordamos totalmente num ponto: há muita coisa a acontecer em muitas partes do continente africano que não deveria acontecer.

Tenho tido sorte na vida, mas isso não significa que não tenha visto ou vivido, em primeira mão, a pobreza africana. Cresci num país de golpes militares e de programas de “ajustamento estrutural”, impostos pelo FMI e devastadores em termos económicos. O sofrimento genuíno de África não é ficção.

E também concordamos num outro ponto: que há uma necessidade ética interior que exige que cada um de nós faça, tanto quanto nos é possível, justiça. Mas, para lá da atenção imediata que ele presta, e muito bem, às bocas famintas, às crianças soldados ou às pessoas civis violentadas, há problemas mais complexos e mais vastos.

Há sérios problemas de governação, de infraestruturas, de democracia e de ordem pública.

Estes problemas não são nem simples em si mesmos, nem capazes de se resumir em slogans. Estes problemas são ao mesmo tempo intrincados e intensamente locais.

Como, por exemplo, poderá hoje um americano bem intencionado “ajudar” um país como o Uganda? Começa, penso eu, com alguma humildade no que respeita às pessoas desses países. Começa com algum respeito pela capacidade das pessoas do Uganda em tomar as rédeas das suas próprias vidas. Os ugandeses já fizeram, e continuam a fazer, muito trabalho para melhorar o seu país e comentários ignorantes (vi muitos) acerca de como “os temos de salvar, já que não se sabem salvar a si próprios” não podem alterar esse facto.

Deixem-me trazer à discussão o exemplo de um país que conheço muito bem. No início deste ano, centenas de milhar de nigerianos saíram às ruas do seu país para protestar contra a decisão governamental de retirar um subsídio ao combustível. Este subsídio era generalizadamente visto como uma das poucas bênçãos da “riqueza” por via do petróleo, em tudo catastrófica.

Mas o que tornava estes protestos comoventes é que eles eram sobre mais do que a suspensão do subsídio. A Nigéria tem um dos governos mais corruptos do mundo e os manifestantes exigiam claramente que algo se fizesse a esse respeito.

Os protestos duraram dias e com elevados riscos pessoais para os manifestantes. Vários jovens foram mortos a tiro e o movimento acabou por se extinguir quando os dirigentes sindicais capitularam e o exército ocupou as ruas.

O movimento não teve “sucesso” nos termos convencionais. Mas algo importante tinha mudado na consciência política do povo da Nigéria. Para mim, e para muitas pessoas que conheço, os protestos deram-nos uma oportunidade para ter orgulho na Nigéria, muitos de nós pela primeira vez na vida.

Esta não é o tipo de história que se consegue resumir num só artigo e, muito menos, transformar num vídeo viral.

Afinal de contas não há nela uma pretensão única a reclamar e – visto que a corrupção é endémica – não há um vilão único a derrubar.

Não há, seguramente, nenhuma “personagem ponte”, o eufemismo de Kristof para os salvadores brancos nas narrativas do terceiro mundo que tornam estas histórias mais palatáveis para os espetadores americanos.

E, contudo, a história do movimento de protesto nigeriano é, este ano e até ao momento, uma das mais importantes da África Subsaariana. Homens e mulheres de todas as classes e idades ergueram-se em prol do que achavam ser justo; marcharam pacificamente; defenderam-se uns aos outros e partilharam comida e bebida; os cristãos ficaram de vigia enquanto os muçulmanos rezavam e vice-versa; e falaram destemidamente aos seus governantes acerca do tipo de país que querem ter. Tudo isto aconteceu sem se pôr a vista num único herói americano, louro e de vinte e poucos anos.

Joseph Kony já não está no Uganda e já não é a ameaça que em tempos foi, mas é ainda um vilão conveniente para aqueles que precisam de um conveniente vilão. O que a África precisa, de um modo mais premente do que levar Kony a prestar contas à justiça, é de uma sociedade civil mais equilibrada, de uma democracia mais robusta e de um sistema de justiça mais justo. Essas são as fundações a partir das quais se podem construir as infraestruturas, a segurança, os cuidados de saúde e a educação. Como é que se encorajam as vozes como as das massa nigerianas que se manifestaram em janeiro ou aquelas que estão empenhadas na luta para desenvolver a democracia ugandesa?

Se os americanos se querem preocupar com África, talvez devam ponderar fazer a avaliação da política externa americana em que já interferem de um modo direto através do voto, antes de se imporem à própria África.

A questão é que a Nigéria é um dos cinco principais fornecedores de petróleo dos EUA e a política americana interessa-se primeiro e acima de tudo com a circulação desse petróleo.

O governo americano não viu qualquer interesse no apoio aos protestos na Nigéria. (Embora o Departamento de Estado tenha produzido uma declaração de apoio – “a nossa posição é que o povo nigeriano tem direito ao protesto pacífico, queremos vê-los a protestar pacificamente e incentivamos as forças de segurança nigerianas a respeitar o direito ao protesto do povo e a atuar profissionalmente aquando de greves.” – cheirava a retórica chapa-três e, sem qualquer surpresa, resultou em nada.

Como se esperava, sob a bandeira dos “interesses americanos”, o petróleo tem prioridade. Sob essa mesma bandeira, a sobrevivência dos seareiros mexicanos foi destruída pelo Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA). Os produtores de arroz do Haiti têm sofrido danos terríveis, devido à inundação do país com arroz americano subsidiado.

Nas Honduras, nos últimos três anos, assiste-se a um pesadelo: um golpe de estado patrocinado pelos EUA e a militarização americana do país têm contribuído para um conflito em que já foram assassinados centenas de ativistas e jornalistas.

Os militares egípcios, neste momento a liquidar aquilo que já foi um movimento de esperança pela democracia e, na onda, dezenas de ativistas, sobrevivem à custa dos mil milhões de dólares anuais em ajuda financeira dos EUA.

Esta litania será familiar para alguns. Para outros será novidade. Mas familiar ou não, tem influência nas nossas noções de inocência e de direito de “ajudar”.

Comecemos aqui o nosso ativismo: com a ignomínia movida a dinheiro que é a política externa americana.

Fazer isto seria abrir mão da ilusão de que a necessidade sentimental de “fazer a diferença” esmaga todas as outras considerações.

O que os heróis inocentes nem sempre compreendem é que desempenham um papel útil para aqueles que têm motivações mais cínicas. O Complexo Industrial do Branco Salvador é uma válvula para libertar as pressões insuportáveis que se acumulam num sistema construído sobre a pilhagem.

Podemos participar na destruição económica do Haiti ao longo de muitos anos, mas quando o terramoto acontece sentimo-nos bem a enviar dez dólares por pessoa para o fundo de auxílio.

Não tenho, por princípio, nada contra estes donativos (frequentemente eu próprio os faço), mas devemos fazê-lo com a consciência de tudo o mais que está envolvido na questão.

Se nos vamos imiscuir na vida dos outros, um bocadinho de zelo é o mínimo que se exige.

O sucesso de Kony 2012 significaria uma militarização crescente do governo antidemocrático de Yoweri Museveni, que está no poder no Uganda desde 1986 e tem desempenhado um papel de relevo no mais mortífero conflito atual, a guerra do Congo.

Mas aqueles a quem a posição de privilégio permite negar o pensamento em constelação gostariam de ignorar esse facto.

Há ainda outras ligações perturbadoras, entre as quais não é de somenos importância o facto de Museveni parecer ser um fantoche dos EUA nas suas lutas encobertas contra os grupos militantes no Sudão e, especialmente, na Somália. Quem sanciona estes conflitos? Sob que autoridade e direção são levados a cabo? Quem está a ser morto e porquê?

Tudo isto nos afasta dos jovens americanos de rosto fresco a usar o poder do YouTube, do Facebooke do entusiasmo puro e simples que vem de se mudar o mundo. Um cantor pode estar inocente, mas a canção nunca é inocente.

Artigo de Teju Cole1, publicado em theatlantic.com traduzido por Helena Loureiro.


 

1 Teju Cole é escritor, historiador de arte e fotógrafo. Autor de Open City, que este ano ganhou o prémio da Hemingway/PEN Award de melhor obra de ficção.

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