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Cientista revela ameaças e pressões que cercam ciência climática

No novo livro, Michael Mann explica como a indústria dos combustíveis fósseis e céticos do clima combatem a evidência do aquecimento global – e como lutar contra esse lóbi expôs o investigador à intimidação, abusos e ameaças de morte. Artigo de Jéssica Lipinski, do Instituto Carbono Brasil.
O autor do gráfico do "stick de hóquei" sobre a evolução das temperaturas ainda sofre represálias e ameaças do lóbi negacionista das alterações climáticas. Foto pennstatelive/Flickr

“Numa ocasião, tive de chamar o FBI depois que me foi enviado um envelope com um pó dentro. Acabou por ser farinha de milho, mas, novamente, o objetivo era a intimidação. Acabei com fitas de segurança policial por todas as portas e janelas do meu escritório.” O trecho anterior pode até ter tudo para compor um livro de ficção policial, mas faz parte da vida de um cientista, cujo crime foi apresentar evidências do aquecimento global. “Essa é a vida de um cientista climático hoje nos EUA”, acrescenta Michael Mann, o investigador em questão.



Esse e outros episódios de ameaças de morte, restrição de liberdades e leitura de correspondências – dignos de histórias de detetives, agentes secretos ou testemunhas criminais – estão relatados no novo livro de Mann, The Hockey Stick and the Climate Wars (“O taco de hóquei e as guerras climáticas”), que deve ser publicado no próximo mês.



Na obra, o cientista – diretor do Centro de Ciências do Sistema da Terra da Universidade Estadual da Pensilvânia, membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e autor da Teoria do Taco de Hóquei, que ilustra o rápido aumento das temperaturas globais – explica como a indústria dos combustíveis fósseis e os céticos do clima combatem as evidências do aquecimento global.



Segundo Mann, o ceticismo é essencial para que a ciência evolua, mas o pesquisador afirma que a maioria daqueles que negam as mudanças climáticas não o fazem através de provas irrefutáveis e evidências científicas, mas sim baseados em desinformação e até distorcendo dados para desacreditar os cientistas que defendem a hipótese, e que são a maioria.



Um exemplo disso foi o caso que ficou conhecido nos média como ‘Climategate’, no qual hackers invadiram o sistema de computadores da Unidade de Pesquisa Climática da Universidade de East Anglia, roubando milhares de e-mails de pesquisadores climáticos.



Os hackers divulgaram trechos destes e-mails, que fora de contexto e/ou distorcidos, pareciam mostrar que os cientistas manipulavam dados para comprovar o aquecimento global. Entre os e-mails roubados, havia material de Mann.



Apesar da polémica criada e da repercussão negativa que o caso teve para a ciência climática, investigações posteriores feitas pelo Parlamento Britânico e por comissões independentes revelaram que não havia provas de má-fé nas práticas dos investigadores.



De acordo com Mann, outra tática usada pelos céticos para desacreditar a ciência climática é o que ele chama de “estratégia de Serengeti”: atacar particularmente uma teoria ou cientista climático visando desmoralizar o todo, “como os leões, caçando a zebra mais fraca na savana”.



O investigador e sua teoria do taco de hóquei foram um dos alvos dessa estratégia: por sustentar a hipótese do aquecimento global antropogénico, Mann ficou sujeito a ataques pessoais, ele e a sua família foram ameaçados, sofreu investigações do Congresso norte-americano – principalmente por parte dos Republicanos – numa tentativa de ter o seu trabalho desacreditado, entre outras retaliações.



“O problema é que o gráfico do taco de hóquei tornou-se um ícone e os negacionistas consideraram que se eles conseguissem esmagar o ícone, todo o conceito de aquecimento global seria destruído com ele. Derrubando Mike Mann nós podemos derrubar o IPCC, consideraram eles”, explica o cientista.



“É uma técnica clássica do movimento dos negacionistas, descobri, e eu não quero dizer apenas aqueles que rejeitam a ideia do aquecimento global, mas aqueles que insistem que fumar não causa cêncer ou que a poluição industrial não está ligada à chuva ácida”, completa.



Apesar das dificuldades que enfrenta para defender a sua pesquisa, Mann afirma que não pensa em abrir mão de seu trabalho, e pretende continuar a combater o lóbi anti-climático juntamente com outros cientistas.



“Algo está diferente agora. As forças do ceticismo das mudanças climáticas, acredito, despertaram um ‘gigante adormecido’. Os meus colegas cientistas reagirão, e estou ansioso para me juntar a eles nessa batalha”, conclui.

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