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De Timor à 'troika', o Bloco de Esquerda

O Bloco de Esquerda nasceu - faz por estes dias treze anos - animado pelo propósito de dar voz a essa vontade funda de mudança que as ruas solidárias com Timor contrapuseram ao pântano de uma alternância sem alternativas. Fica adiante um caminho cheio de desafios.

Há treze anos, o espelho refletia um país manietado pela alternância estéril entre o novo-riquismo agressivo do cavaquismo e a placidez do diálogo guterrista. Uma mera alternância de estilo para perpetuar uma mesma estratégia de modernização conservadora de Portugal, em que a aversão da elite económica ao risco era premiada com sempre mais concentração do rendimento.

O Portugal de há treze anos era também o país de uma esquerda refém dos bloqueamentos herdados da Guerra Fria. As cumplicidades e os fantasmas objeto de recriminações cruzadas roubavam a esse espaço político capacidade de oferecer alternativas efetivas e mobilizadoras às pessoas.

Esse País politicamente estagnado e economicamente enfeudado tremeu quando as multidões vieram para a rua fazer da solidariedade com Timor uma espécie de remake de Abril. O Bloco de Esquerda nasceu - faz por estes dias treze anos - animado pelo propósito de dar voz a essa vontade funda de mudança que as ruas solidárias com Timor contrapuseram ao pântano de uma alternância sem alternativas. Vaticinaram-lhe a morte à nascença, vaticinaram-na depois em cada um dos seus treze anos. Mas não foi a morte que veio, veio a mobilização contra a guerra no Iraque, veio a exigência de despenalização do aborto, veio a luta dos precários, veio a escola defendida pelos seus professores, veio o combate contra todas as discriminações, veio o Serviço Nacional de Saúde como rosto da democracia, veio a afirmação dos direitos das mulheres, veio o fogo sobre a corrupção e os privilégios fiscais, veio a exigência de respeito pelo trabalhador, pelo seu salário, pela sua reforma, pelos seus direitos, pelos direitos de todos. Essa agenda de todas as emancipações mudou a esquerda. E mudando-a, ajudou a mudar a sociedade.

Por ter sido assim, fica adiante um caminho cheio de desafios. Identifico dois. O primeiro é o da intransigência na defesa da política. Inovador nas formas e nos gestos, o Bloco de Esquerda soube sempre que o seu campo é o da política onde se jogam as escolhas decisivas que vão ao essencial da vida toda - da intimidade à escola ou à fábrica, da cidade ao Parlamento ou ao palco. Ora, nestes tempos de punição inclemente de tudo o que se não reduz ao primado da rentabilidade capitalista, o risco de a indignação se transmutar em populismo é grande. A generalização do discurso fácil contra "os partidos", "o Parlamento" ou "os políticos" traz consigo um convite ao desinvestimento nas escolhas fundas. Demonstrar quanto há de equivocado nessa agenda e contrapor-lhe a mobilização para os confrontos políticos e ideológicos que abrem caminhos de efetiva transformação é uma exigência porventura tão incompreendida como imprescindível.

O segundo desafio é o da política unitária. Há treze anos, o Bloco de Esquerda veio à política não para um exercício de autocontemplação satisfeita mas para promover a formação de maiorias sociais e políticas de mudança socialista do País. O património construído desde então nesse plano é notabilíssimo. Mas ser fiel a esse propósito de fazer da utilidade à esquerda, em todas as escalas em que a política se joga, a finalidade estratégica primeira é um caminho particularmente exigente e difícil. Há na esquerda portuguesa uma cultura de rigidez clubística que é um bónus aplaudido com júbilo pela direita. No protesto como na construção de alternativas concretas, a derrota da direita tem que ser mais do que um mote, tem que ser uma realidade. A lição de antissectarismo que foi a convergência de grupos e de agendas que permitiu a fundação do Bloco de Esquerda há treze anos carece de ser replicada hoje mais que nunca. Essa é uma responsabilidade indeclinável do Bloco e um desafio a todas as forças da esquerda.

Sobre o/a autor(a)

Professor Universitário. Dirigente do Bloco de Esquerda
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