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Será o Vegetarianismo um ato político?

Desde sempre a alimentação tem sido o reflexo das culturas dos países, cidades ou comunidades onde a humanidade reside. Por todo o planeta, assistimos a uma diversidade imensa de pratos e sabores que enriquecem os povos ou os demarcam do resto do mundo. Artigo de João Pedro Santos.

O Vegetarianismo está presente na alimentação humana desde há cinco milhões de anosi, mas apesar de possuir a sua história disseminada por todo o mundo, teve a sua relevância inicial documentada no Oriente, onde as religiões determinaram em grande parte o comportamento alimentar dos seus milhões de crentes, como sucedeu no hinduismo, budismo ou jainismoii, que se dispersaram pela Índia, China e Japão.

Porém, durante o século XX, o Vegetarianismo começou a ser assumido e promovido principalmente em países como o Reino Unido, Estados Unidos da América, Alemanha e França, baseados na famosa trindade de argumentos (éticos, ambientais e de saúde)iii que têm fundamentado a opção vegetariana ou vegana de milhões de pessoas em todo o mundo.

Atualmente, tendo em conta o panorama alimentar que vivemos na nossa sociedade europeia e ocidental, onde o acesso facilitado a vegetais e frutas frescas, leguminosas, cereais, frutos secos e sementes e, inclusivamente a alguns alimentos exóticos, como o tofu (queijo fresco de soja), tempeh (grãos de soja fermentados) e ao seitan (glúten de trigo), têm propiciado um aumento exponencial do consumo alimentar vegetarianoiv.

A par disso, o aumento da quantidade de restaurantes vegetarianos ou de restaurantes convencionais com alternativas vegetarianas ou da promoção de linhas vegetarianas de produtos alimentares em hipermercados de cobertura nacional, permite concluir que o vegetarianismo se está a enraízar na cultura alimentar de muitos países, oferecendo alternativas alimentares viáveis em contraponto ao consumo de carne, peixe e derivados.

A política aparentemente surge desconexa do vegetarianismo, mas se a considerarmos como a procura do bem-estar comum numa sociedadev, podemos encontrar aqui um fio condutor que nos permite levar a um ponto crucial do nosso consumismo: a ideia de que a escolha comercial de um consumidor é sempre um ato políticovi.

Então se considerarmos as políticas alimentares, que norteiam nações e continentes inteiros, compreendemos o quão relevante são as ações quotidianas que acompanham a nossa alimentação e a nossa liberdade de escolha de um produto alimentar, em detrimento de outro. Podemos mesmo afirmar que não podemos negligenciar o nosso poder económico individual e temos a responsabilidade de o gerir da melhor forma possível. Um consumidor passivo não se coaduna numa democracia onde é vital tomar partidos e estar consciente das nossas decisões díárias e respetivas consequênciasvii.

De facto, a confluência de uma série de razões que determinam a nossa escolha no momento da seleção de um produto no supermercado, como o nosso sistema de crenças, ideais, disponibilidade económica, qualidade do produto a ser adquirido, credibilidade social da marca, impacto ambiental associado, a influência publicitária,ser um produto biológico ou não, ou até o tipo de produção industrial empregueviii, moldam as nossas decisões de compra e motivam estudos infindáveis ao comportamento dos consumidores.

No fundo, falamos de realizar escolhas vitais que determinam lucros a uma empresa e não a outra, que evidenciam o sucesso de uns e o fracasso de outros ou que permitem construir um futuro sustentável ou não.

O vegetarianismo surge aqui como um elemento crucial, dado que nos permite assumir uma postura decisiva no consumo orientado dos produtos que são isentos de crueldade animal, não testados em animais ou têm efeitos ambientais reduzidos.

Cada vez mais urge a necessidade de levar a política para os supermercados e espaços comerciais, vincando de forma inequívoca o rumo que traçamos para nós e para o nosso futuro comum.

 

Sobre o/a autor(a)

Ativista dos direitos dos animais / Estudante Universitário
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