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RDP: Telejornais omitiram depoimentos que indicam pressões do Governo

O fim do programa de opinião da Antena 1 que emitiu críticas à elite angolana continua na agenda parlamentar e o Bloco quer saber qual a razão da RTP ter divulgado apenas uma versão dos depoimentos: a do diretor Luís Marinho, acusado de silenciar o "Este Tempo". Entretanto, PSD e CDS impediram o secretário de Estado da Cultura de esclarecer os deputados sobre a venda da Tobis a uma empresa de capitais angolanos.
Desde que regressou de Luanda, Miguel Relvas está no centro das suspeitas de pressões para silenciar as vozes críticas ao regime angolano. Foto STR/Lusa

"Tendo a comissão parlamentar ouvido duas versões contraditórias sobre o processo que levou ao fim do programa, é com estranheza que vemos que só uma das versões foi referida no Telejornal da RTP", diz o requerimento apresentado pela deputada bloquista Catarina Martins.

De facto, o visionamento dos telejornais da estação pública revela que apenas a versão sustentada pelo Diretor Geral Luís Marinho foi emitida. "As audições de quem sustentou uma versão diferente (o ex-adjunto da direção de informação da RDP, Ricardo Alexandre, e o Provedor, Mário Figueiredo) não tiveram sequer qualquer referência no Telejornal", acrescenta o requerimento.

"Naturalmente, não se trata de questionar os critérios editoriais da RTP, mas de compreender se existiu alguma interferência nas opções da direção de informação que justifiquem o desequilíbrio observado", refere ainda Catarina Martins, que chama agora à comissão o diretor de informação da RTP, Nuno Santos, e o ex-diretor de informação da RDP, João Barreiros para clarificarem o papel de Luís Marinho neste processo.

Este fim de semana juntou-se mais uma voz aos que acusam o diretor-geral de ter acabado com o programa por causa da crónica de Pedro Rosa Mendes, muito crítica da elite político-financeira angolana e da relação subalterna que com ela mantém o ministro Miguel Relvas, a propósito da presença deste num programa televisivo da RTP transmitido em direto de Luanda. O jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares revelou um episódio passado em 2004, quando também era cronista na Antena 1 e Luís Marinho o diretor da estação. "Desde a tomada de posse que fui crítico contundente do Governo Santana Lopes, até que um dia o Luís Marinho me chamou e começou com uma conversa circular acabando por confessar que achava que a minha crónica devia ser substituída por um outro tipo de intervenção qualquer, talvez enquadrada com outros, e na qual ele iria meditar", afirma Sousa Tavares.

O cronista acrescenta não ter dúvidas que Luís Marinho "continua fiel ao seu roteiro, tendo assim servido o Governo Santana Lopes, o Governo Sócrates e agora o Governo Passos Coelho/relvas — e sempre a subir". Em declarações ao Diário de Notícias, Sousa Tavares diz agora esperar "que o Luís Marinho seja demitido, como deve".

Mas enquanto o parlamento discute as suspeitas de censura na imprensa a opiniões contrárias à rede de José Eduardo dos Santos na política e nos negócios, a presença do capital angolano nos media portugueses aumentou na semana passada com a compra da Tobis. Há dois meses, a maioria PSD/CDS recusou a presença do secretário de Estado para dar explicações sobre o futuro da empresa, alegando ser ainda cedo para esclarecimentos públicos. Agora, com o negócio fechado por 3,78 milhões de euros e com Francisco José Viegas a dizer que o Estado nunca teve contacto direto com os novos donos da Tobis - a empresa Filmdrehtsich Unipessoal Lda - o Bloco reclamou de novo a sua presença no parlamento.

Segundo a deputada bloquista Catarina Martins, a Assembleia "não pode assistir passivamente à perda da Tobis sem inquirir sobre as consequências desta venda, o futuro seus dos trabalhadores e do cinema e audiovisual português”. Mas os deputados do PSD e do CDS voltaram a não concordar com a audição e assim livraram Francisco José Viegas de dar as explicações sobre o misterioso negócio que alienou a empresa com quase oito décadas de experiência em serviços de pós produção, restauro e conversão de filmes para formato digital. 

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