You are here

Desgoverno

Nós somos a Grécia do povo e da democracia, eles são o Portugal do desgoverno.

Os adeptos da austeridade recessiva estão a conduzir o povo da Grécia a uma condição absolutamente desesperante. A cada pacote de austeridade sucede um outro sempre mais severo e letal. A rutura social do país está a acontecer. Mas nada disto demove os obcecados pela austeridade. Afinal de contas, o que os motiva é o fascínio por sociedades em escombros, crentes como são de que será sobre os escombros que construirão a nova e pura sociedade, guiada pelo império da desregulação e do darwinismo social.

A secção portuguesa da internacional austeritária faz do cordão sanitário à volta da Grécia - "nós não somos a Grécia" é o seu mantra - uma prioridade absoluta. Cínicos, dizem-nos que os gregos têm que pagar o seu desgoverno dos dinheiros públicos com língua de palmo. Falemos então de desgoverno dos dinheiros públicos e de quem tem que o pagar. Não é preciso sair de Portugal para o efeito. O BPN é um monumento (ainda inacabado) ao desgoverno mais irresponsável do erário público. Lembremos porquê e perguntemo-nos quem tem que o pagar.

O BPN foi, em primeiro lugar, um caso de desgoverno criminoso sob a euforia do apogeu do cavaquismo. O que inebriou aquela clique de homens de negócios do PSD não foi o risco mas a fraude. Negócios ruinosos, favores a amigos, mistura de influências políticas e pessoais, empresas vendidas três vezes no mesmo dia por valores diferentes, tudo com a complacência passiva da supervisão do Banco de Portugal. Uma rede nebulosa de operações e financiamentos destinada a fazer circular e distribuir dinheiro, muito dinheiro, por uma elite de privilegiados. Assim se enriquece depressa em Portugal. É isto o desgoverno.

Desgoverno irresponsável, depois, na decisão do Governo do PS de nacionalizar os prejuízos. Tardia relativamente à evidência de colapso iminente - e, por isso, com custos altamente acrescidos - ,a nacionalização teve um perímetro confinado ao BPN que deixou de fora a SLN. Isso significou nacionalizar prejuízos e desperdiçar ativos valiosos. Alguém ganhou com isso. Os cidadãos, esses, perderam quer diretamente (aumento de impostos) quer indiretamente (limites posteriores à composição do orçamento). É isto o desgoverno.

Em terceiro lugar, o BPN tem sido um caso de desgoverno continuado, traduzido na injeção incessante de capital público. Desde que, em novembro de 2008, o Governo anunciou a descoberta de um buraco de 700 milhões de euros, o dito buraco não parou de crescer. "Não é deitando dinheiro sobre os problemas que eles se resolvem", foram proclamando sucessivos governantes para justificarem os cortes nos subsídios de desemprego ou no apoio às empresas públicas de transportes. Pois bem, sobre o buraco do BPN esses mesmos governantes decidiram até hoje ditar mais de cinco mil milhões de euros. É isto o desgoverno.

Três anos volvidos sobre a nacionalização das perdas, o Governo PSD-CDS decidiu vender o BPN ao BIC, de capitais angolanos. O BIC pagará ao Estado 40 milhões de euros para comprar um banco que tem depósitos no valor de 1,8 mil milhões e créditos de 2,2 mil milhões e que o Estado tem persistentemente refinanciado. Assim se enriquece no mundo. É isto o desgoverno.

A pergunta é então: são os portugueses que devem pagar com língua de palmo o desgoverno do BPN? A resposta é obviamente não. Os que desgovernaram o BPN passeiam-se nas avenidas de Lisboa. Os que desgovernaram as finanças públicas por causa do BPN revezam-se na governação do País. Ambos nos dizem que não somos a Grécia e o seu desgoverno dos dinheiros públicos. Têm razão: nós somos a Grécia do povo e da democracia, eles são o Portugal do desgoverno.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” a 17 de fevereiro de 2012

Sobre o/a autor(a)

Professor Universitário. Dirigente do Bloco de Esquerda
(...)