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Quando os dias se tornam azedos

Estão na idade mais produtiva. Trabalharam sempre muito. Mas agora não há maneira de arranjarem emprego. São a grande fatia do desemprego em Portugal. Mas o Governo desconhece a sua existência.

Perderam o emprego depois de 15, 20, 30 anos na mesma empresa. Têm o 4º ano, às vezes o 6º ou mesmo o 9º. Começaram a trabalhar aos 16 anos e agora têm entre 35 e 54 anos. Estão em situação de desemprego. Desempregados e desempregadas de longa duração. O subsídio de desemprego acabou, o subsídio social de desemprego também. Até o RSI já acabou. Não têm apoio nenhum.

Estão na idade mais produtiva. Trabalharam sempre muito. Mas agora não há maneira de arranjarem emprego. Foram novos para as grandes fábricas que empregaram aos milhares e depois foram embora, assim sem mais. São a grande fatia do desemprego em Portugal. Mas o Governo desconhece a sua existência.

À tragédia pessoal de cada uma destas vidas, junta-se a tragédia de um país que afasta quem tanto trabalhou, quem tanto quer trabalhar, quem tanto pode trabalhar. Dizem-nos que estamos a passar por reformas estruturais. Reformas que prescindem das pessoas e do trabalho, pelos vistos. Ou, pelo menos, que as desprezam.

Entretanto, um suposto programa para a criação de emprego foi publicado em Diário da República revelando toda a leviandade do Governo; um programa que permite às empresas acumular financiamento público com isenções de contribuições para a segurança social, sem qualquer contrapartida quanto aos postos de trabalho. Entrega-se dinheiro aos patrões para contratação de precários a preço de saldo e não se exige sequer a criação de emprego a prazo.

E enquanto o Governo aponta as baterias aos salários e aos direitos de quem trabalha, as empresas continuam a fechar. E não pelos salários (que são dos mais baixos da Europa), ou pelas horas de trabalho (que são mais do que a média europeia) ou pela suposta rigidez de um mercado laboral (onde a precariedade é, cada vez mais, regra). Hoje as empresas fecham por falta de financiamento. Os juros à banca pesam já muito mais nos custos das empresas do que o trabalho.

Mas sobre isso o Governo nada faz. A primeira resposta do Ministro da Economia à luta dos trabalhadores e trabalhadoras da Cerâmica de Valadares, que tinha encomendas que não podia atender por falta de financiamento, é reveladora: “não é colocando dinheiro sobre os problemas que os resolvemos” e a empresa provavelmente não é viável. Como se viável fosse o desemprego; o desemprego de quem deu uma vida à empresa e ficaria num dos ficheiros que vão envelhecendo nos centros e emprego. Sabemos hoje que a empresa voltou a laborar, por causa da coragem e união de quem lá trabalha. É a responsabilidade da luta, contra a leviandade de governo.

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora do Bloco de Esquerda. Deputada. Atriz.
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