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Os Descendentes, de Alexander Payne

Peço desculpa aos fãs de George Clooney, que são muitos. E que estarão satisfeitos com o Globo de Ouro ganho pelo filme recente que ele protagoniza, “Os Descendentes”, o que promete um bom concurso ao Óscar. Mas vou escrevê-lo com toda a franqueza: “Os Descendentes” é um dos filmes mais desenxabidos que vi nos últimos anos. Publicado por Francisco Louçã em nota no facebook.

Não é por ser um melodrama. Um melodrama pode ser carinhoso e comovente, ou mesmo inspirador, como o “ET”, de Spielberg. Este, de Payne, tem todos os tiques do género: uma morte anunciada, uma família em desagregação, uma herança em disputa, as raízes culturais a falarem aos descendentes, decisões dramáticas que têm de ser tomadas até ao fim do filme. Contudo, trata-os como clichés, banaliza o sofrimento, enreda os personagens em roteiros sentimentais sem chama e resolve a tragédia da forma mais previsível.

Salva-se uma ou outra representação, como a das filhas de Matt e Elizabeth King (as actrizes Shailene Woodley e Amara Miller), que são tocantes, mas perde-se tudo o resto. As paisagens não têm natureza. O mar não se cheira. As pessoas – a comunidade dos primos – têm disputas mansas e não querem nada ou não sabem o que querem. O pai corre apatetado para descobrir a vida que perdeu. O sogro vive o seu ódio ao genro, aconteça o que acontecer.

No meio de tudo isto, o realizador, por qualquer razão anónima, usa grandes planos das expressões de Clooney, mas o espectador não as sentirá porque não têm sentimento: a surpresa, a raiva, o carinho, são sempre iguais. Um crítico que aprecio, João Lopes, pensa exactamente o contrário, e considera não só que se trata de um “brilhante objecto de cinema”, mas também que esta representação de Clooney é uma homenagem ao papel dos actores no cinema: “o actor emerge como um dos derradeiros elos humanos que nos permitem sermos espectadores para além das rotinas mais agressivas do marketing” (DN, 23 Janeiro). Não me convence, porque não foi isso que vi.

Quanto ao resto, confesso que não aceito. Não aceito que a câmara passe pelos letreiros de resortsdas praias do Hawai ou que mostre repetidamente o nome das companhias de aviação. Bem sei que isso é comum, mesmo que seja normalmente mais disfarçado, mas não deixa de ser irritante: não pagamos bilhete para ver publicidade e para terem o descaramento de nos dizer que nem nos querem seduzir. Não aceito que, para mostrar a relação com o passado, o realizador se limite a voltar a mostrar as imagens de molduras de fotografias dos ancestrais, que não estão lá para nos dizerem nada, como se alguma magia misteriosa se comunicasse deste modo aos descendentes. Não aceito diálogos totalmente previsíveis. Não aceito que os personagens se irritem e se recomponham com toda a naturalidade, como se a vida fosse sempre igual.

O meu problema, portanto, é que este filme é um melodrama sem tragédia. A tragédia é mais dura, mais verdadeira, não é mole, não é piegas. Questiona, não conforta. Atinge, não finge. Faz parte da vida e não do entretenimento. “Os Descendentes” é um filme que fracassa porque não acredita nem na vida nem na morte.

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