You are here

Ananias foi dar uma moeda a Cavaco

A quantia reunida se calhar não foi suficiente, certamente por isso o professor Cavaco não a quis aceitar.

Ananias acredita em tudo o que diz o primeiro-ministro Passos Coelho. Tudo mesmo. Todas as palavras. Antes, confiava em todas as afirmações de José Sócrates. Também cria piamente em tudo o que diziam Santana Lopes, Durão Barroso e António Guterres.

Além disso, para Ananias também tem valor de lei tudo o que diga o Presidente da República. Por isso, foi com grande constrangimento que ouviu Aníbal Cavaco Silva queixar-se das dificuldades que enfrenta para pagar as suas contas ao fim do mês. Achou realmente absurdo que o presidente receba só 1.300 euros pela reforma de professor universitário.

Solidário com ele e com todos os professores universitários, decidiu logo ali escrever uma carta ao primeiro-ministro Passos Coelho sugerindo o aumento das reformas destes docentes. Para não haver um agravamento do défice, podia-se, por exemplo, descontar essa verba do grupo Jerónimo Martins, logo que a Autoridade Tributária e Aduaneira concluir quanto este grupo ficou a dever ao Estado português em impostos ao se mudar de armas e bagagens para a Holanda. Passos Coelho prometeu uma análise rigorosa por parte desta entidade, e Ananias não tem motivo para duvidar que esta promessa do primeiro-ministro não vá ser cumprida.

Ananias continua a não saber quanto o Presidente ganha da reforma do Banco de Portugal; mas acredita que deve ser tão pouco que ele teve vergonha de dizer. “Só pode ser esse o motivo de uma pessoa tão rigorosa com as contas, como o professor Cavaco, não dizer quanto ganha da segunda reforma”, pensou com os seus botões o Ananias, que muitos apelidam de “o último grande crédulo da Nação”.

Assim, quando Ananias soube que os portugueses solidários com o presidente tinham decidido ir a Belém entregar uma ajuda, decidiu ir também. Finalmente tinha arranjado um objetivo para se manifestar. Numa época em que se fazem tantas manifestações de indignados, encontrou enfim um bom motivo de indignação. Ananias sentiu-se de facto verdadeiramente enxovalhado pelo facto de a Nação não se levantar em uníssono para pagar as contas do seu mais alto Magistrado.

Por isso, juntou todos os cêntimos que lhe sobravam e que tinha amealhado para uma qualquer eventualidade, e trocou-os por uma moeda de dois euros. E, à hora marcada, lá estava ele a dar o seu modesto contributo, junto com mais uns 300 compatriotas que como ele quiseram ir ajudar a pagar as contas do Presidente.

Ananias achou que tinha ido pouca gente, e que a quantia reunida se calhar não era suficiente. Certamente foi por isso que o professor Cavaco não a quis aceitar. Voltou de Belém a magicar numa outra solução. De repente, o seu rosto iluminou-se. Era evidente, por que não se tinha lembrado disso antes? A solução era arranjar um part-time ao presidente, para ganhar um complemento de salário, um part-time que nem o ocuparia muito tempo. Bastava ir a uma reunião do Conselho Geral da EDP, para ganhar cerca de mais cem mil euros por ano. Pois se o professor Catroga ganha cerca de 700 mil por sete reuniões... é só fazer as contas! Uma reunião por ano certamente não prejudicará o desempenho das altas funções do professor Cavaco.

Contente com a ideia, Ananias resolveu logo pô-la em prática. Puxou de uma folha e começou a escrever uma carta:

“Esselentíssimo plesidente do Conselho Gelal da EDP...”

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
(...)