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O Epigrama Estaline, de Robert Littell

Quando foi publicado o seu primeiro livro, “As Benevolentes”, Jonathan Littell, um norte-americano que escreve em francês, revelou-se como um dos grandes autores do nosso tempo. “As Benevolentes” são a “Guerra e Paz” do século XXI, escrito como um filme sobre a tragédia do nazismo e da guerra europeia de 1939-1945. Publicado por Francisco Louçã em nota no facebook

Confesso por isso que, quando comprei o primeiro livro de Robert Littell, o que me tinha atraído fora a curiosidade de ser o pai de Jonathan. Não sabia nada mais sobre ele.

Agora sei mais alguma coisa. Robert é um jornalista retirado. Retirado para França, onde vive, e retirado do jornalismo (trabalhava na Newsweek) para se dedicar ao romance de espionagem, com sucesso. Fez uma carreira prestigiada com uma grande história ficcionada da CIA, além de outros livros sobre o universo da guerra-fria. Contudo, o livro que li nada tem que ver com essas guerras: o título é “O Epigrama Estaline”, foi publicado em 2009 e traduzido em Portugal no ano passado.

“O Epigrama Estaline” é a história de um poema e do seu autor, Osip Mandelstam, considerado o maior poeta russo da primeira metade do século XX. O livro leva-nos aos anos trinta: Estaline domina o partido e o Estado soviético, os opositores são presos e começam os grandes julgamentos dos velhos bolcheviques, que serão condenados à morte por crimes ficcionais, Hitler já tomou o poder na Alemanha e uma guerra paira no horizonte.

Em Moscovo, Mandelstam lê poesia e é seguido por jovens e por amigos, como os escritores Anna Akhmatova e Boris Parternak, que viria a escrever vinte anos mais tarde um livro proibido e famoso, o “Dr. Jivago”, que lhe deu o Prémio Nobel da Literatura (e que não foi autorizado a receber). E indigna-se contra a repressão e a tristeza.

Por isso, Osip Mandelstam decidiu derrubar Estaline com um poema. Acreditava que, se o poema fosse lido por todos, se denunciasse os crimes, se fosse repetido, se fosse gritado como uma palavra de ordem nos teatros e nos concertos, se os jovens dele fizessem bandeira, se os opositores se lhe juntassem, o Kremlin cairia como um castelo de cartas. Esse poema tem onze linhas, foi lido a meia dúzia de amigos e decorado pela sua companheira, Nadhezda, para que o manuscrito pudesse ser destruído. Foi imediatamente descoberto pela polícia política, que prendeu o poeta.

Preso e torturado na prisão do KGB em Moscovo, a Lubianka, Mandelstam foi salvo do fuzilamento porque era protegido por Bukarine e sobretudo porque Estaline o considerava um grande poeta e queria forçá-lo a escrever-lhe uma homenagem. Deportado durante quatro anos, Mandelstam regressou depois a Moscovo: Bukarine já fora liquidado, os chefes da polícia política que o tinham torturado e condenado também já tinham sido fuzilados e substituídos. Voltou a ser preso e condenado a um novo exílio, desta vez na Sibéria. Morreu nesse Gulag em 1938, com 47 anos.

Esta é a história do livro, contado na primeira pessoa por Osip, Nadhezda, Akhmatova, Pasternak, também pelo guarda-costas de Estaline, por uma amante do casal Mandelstam e por outros presos e deportados. Uma teia de tragédia, conduzindo inevitavelmente ao fracasso, correndo para a morte com os versos nos lábios. A desilusão da revolução, “a barca do amor que naufragou de encontro à vida quotidiana”, como escrevia o poeta Maiakovski. O desespero das prisões, a tragédia da condenação por ideias, o cinismo como política.

A morte de Mandelstam ocorre no fim de uma época. A revolução tinha sido assassinada, a guerra ia começar. Pode um poeta descobrir os sentimentos desta mudança, ouvir estas engrenagens que rangem nas profundezas, sentir a tempestade da destruição que está a chegar, buscar as vozes das pessoas que são esmagadas pela tormenta? Littell diz-nos que sim e põe na boca de Estaline a lição desta história: um poema resiste e é o que fica depois de tudo passar. O epigrama Estaline.

Publicado por Francisco Louçãem nota no facebook

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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