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AdP: Mais nomeações com cartão partidário

Três figuras do PSD e CDS vão integrar a nova administração da Águas de Portugal, nomeados por Assunção Cristas com a missão de preparar a privatização da empresa. Um deles é o presidente da Câmara do Fundão, que está em litígio judicial com a empresa que vai agora administrar: a AdP reclama nove milhões de euros em dívida pela autarquia. "É uma descaradíssima partidarização", diz o deputado bloquista João Semedo.
Continua a distribuição de "tachos" nas empresas públicas: Manuel Frexes, do PSD, junta-se aos centristas Álvaro Castelo Branco e Gonçalo Barata na administração das Águas de Portugal.

Manuel Frexes, presidente dos Autarcas Sociais Democratas e vice-presidente da Associação Nacional de Municípios, prepara-se para sair a meio do último mandato que a lei lhe permite à frente da Câmara do Fundão. O líder dos autarcas laranjas, que ainda há dois meses tinha feito um discurso num jantar promovido pelo PSD de Ansião em que anunciou que "vamos passar muito mal nos próximos anos" por causa do impacto das medidas de austeridade, diz agora que "a Câmara do Fundão fica muito bem entregue". Será o seu atual vice-presidente, Paulo Fernandes, a ter de lidar com a dívida da Câmara à Águas do Zêzere e Coa, empresa do grupo AdP, avaliada em cerca de nove milhões de euros e que é reclamada em tribunal.

De acordo com o relatório de contas de 2010 da AdP, cada administrador executivo obteve uma remuneração mensal de 8.952 euros mensais, 14 vezes ao ano, com direito a viatura de serviço, telefone, subsídio de refeição no valor de 133 euros, seguro de saúde e seguro de vida/acidentes pessoais. Em 2009, estes administradores ganharam ainda mais 46.369 euros em prémios de gestão. No ano anterior, o Tribunal de Contas analisara a gestão entre 2003 e 2006, e detetou a atribuição de 2,3 milhões de euros em prémios, quando o grupo teve prejuízos de 75,5 milhões. Os gastos de 2,5 milhões na renovação da frota automóvel da administração também foram criticados pelo Tribunal.

Outro dos novos administradores da Águas de Portugal vem do CDS: Álvaro Castello-Branco, o vice-presidente da Câmara do Porto que presidia à empresa municipal de águas do concelho. Nos últimos dias de 2011, a Comissão de Trabalhadores da empresa recebeu o deputado bloquista João Semedo para lhe denunciar casos de atribuição discricionária de prémios, incentivos e horas extraordinárias, com alguns funcionários a ganhar até 35 mil euros mensais. Poucas semanas depois, Assunção Cristas escolheu o seu companheiro de partido para administrar a Águas de Portugal.

Para dirigir o sector financeiro da Águas de Portugal, foi nomeado administrador Gonçalo Martins Barata, apresentado no comunicado do Ministério da Agricultura enviado à imprensa como um gestor "que conta com 18 anos de experiência no Citigroup, na área de financiamento a empresas". Na verdade, Gonçalo Barata é também companheiro de Assunção Cristas na Comissão Política do CDS, tendo sido apresentado no Congresso anterior às legislativas como um dos novos militantes do partido integrados por Paulo Portas na direção.

Estes três administradores vão juntar-se a Afonso Lobato Faria, nomeado pelo Governo para presidir à Águas de Portugal. Este engenheiro civil foi administrador da Agência Municipal de Ambiente e Energia de Oeiras e fez carreira de diretor de projetos e gestor no grupo Ecoserviços, que preparou os processos para a concessão de sistemas de saneamento básico nos municípios do Planalto Beirão e de Setúbal a um consórcio que integrava o próprio grupo, em parceria com empresas nacionais e estrangeiras. O grupo Águas de Portugal continua a ser apresentado como um dos maiores clientes da empresa, a par do Ministério do Ambiente, Regiões Autónomas, municípios e empresas de construção.

Para o deputado bloquista João Semedo, estas nomeações são "uma descaradíssima partidarização, com a agravante de contrastarem flagrantemente com as palavras de Pedro Passos Coelho durante a sua campanha eleitoral".  Para além do critério do cartão partidário para as nomeações, Semedo considera que "é sabido que Manuel Frexes tem um conjunto de processos em tribunal que resultam de uma dívida da câmara de que ele é presidente a uma empresa do grupo Adp e que Álvaro Castelo Branco é o atual presidente da Águas do Porto que estão em processo de privatização  por decisão de Rui Rio".

A Águas de Portugal tem apresentado resultados positivos nos últimos anos e o lucro do grupo AdP cresceu 284% nos primeiros seis meses de 2011, quando comparado com igual período de 2010. Estes resultados tornam ainda mais apetecida, para os grandes grupos económicos privados, nacionais e estrangeiros, a privatização da AdP já prometida, pelo menos a 49%, pelo Governo PSD/CDS-PP.

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