You are here

O destino às avessas

2011 não deixará saudade mas é preciso que faça parte da nossa memória. Não esquecer cada medida, cada justificação, cada mentira, cada promessa.

O ano que agora termina não deixará saudade e marcará a história do nosso povo. Um ano em que se viveu debaixo da catadupa das medidas de austeridade, em que os direitos foram esmagados pela doutrina do “vivemos acima das possibilidades” e o empobrecimento se tornou regra para a maioria.

2011 é o ano do ajuste de contas com o 25 de Abril, o ajuste de contas com o mundo do trabalho. O ano em que a culpa foi apontada à esquerda. Aquilo que em 5 de Junho parecia uma solução e uma saída, rapidamente se transformou numa amarga realidade e cada vez fica mais claro que não está em causa a “saída da crise” mas sim destruir tudo aquilo que constitui o nosso património democrático: a alteração das leis laborais, a destruição do serviço nacional de saúde, do transporte público colectivo, a diminuição dos salários e do poder de compra, o roubo nas SCUT, a venda dos anéis que restavam com a concretização do milionário negócio para a China com a aquisição da parte detida pelo Estado na EDP, a imoral lei do arrendamento e até o direito universal de acesso à televisão está em causa com o chamado “apagão analógico”, símbolo da insensibilidade social e do desprezo pelo interior do país, marca indisfarçável da prática deste Governo.

2011 é o ano em que milhares de portugueses e portuguesas perderam o seu posto de trabalho. Milhares de mulheres voltam a casa numa situação em que a sua cidadania, tão duramente alcançada, é amputada quando são afastadas do mercado de trabalho. Milhares de jovens vivem mês a mês com o futuro preso em 500 euros.

2011 é o ano da suprema hipocrisia que colocou a caridade no lugar da política social: existem uns – homens, mulheres e crianças, muitíssimo pobres, que recebem uns cabazes com alimentos e vão ter umas isenções depois de preencherem uns formulários e do Estado espiolhar bem as suas imaginárias contas bancárias e os outros, que ganham 600 euros e são classe média.

2011 é um ano em que parece que tudo nos foge entre os dedos como se fosse areia. É um ano de derrota, de decepção, de frustração, de depressão. Mas também é o ano em que o país saiu à rua em manifestações imensas, é o ano da Greve Geral que foi o primeiro sinal de que não aceitaremos o “destino” que nos apresentam como inevitável.

2011 não deixará saudade mas é preciso que faça parte da nossa memória. Não esquecer cada medida, cada justificação, cada mentira, cada promessa. A velocidade actual dos acontecimentos leva a que nem tudo fique registado na nossa memória. Mas, mais do que nunca ela é necessária para fortalecer a participação, para não aceitarmos passivamente tudo o que nos dizem, para nos tornarmos actores da mudança. A luta promete e 2012 terá que ficar na história como o ano em vivemos o nosso “destino” às avessas (1) e a democracia se reconstrói em cada nova forma de luta e na rua.


1- Não esquecendo os “apelos è emigração” que também marcaram este ano, revisitei a Moda do Emigrante do GAC, que diz assim: Somos um rio que corre/Por entre margens diversas/Que lentamente percorre/O seu destino às avessas/Mas é nas margens do povo/Que havemos de ser torrente/P’ra fazer um país novo/Num sentido bem diferente
 

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Vereadora da Câmara de Torres Novas. Animadora social.
(...)