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2012: Democracia ou oligarquia

A marca das lições aprendidas dos dois lados do Mediterrâneo em 2011 sobre a democracia foi a da simetria.

O que do ano que agora finda ficará para a memória da humanidade serão dois factos. O primeiro é a irrupção das lutas das massas árabes pela democracia. O segundo é a crise do euro e a implosão do modelo social europeu. O declínio americano, a turbulência russa e a afirmação de poder chinês não são factos, são tendências de fundo que 2011 apenas confirmou.

A simultaneidade das revoltas árabes e da crise do euro pôs no centro do debate público a democracia. E, ao mostrar-nos a democracia como um processo social mais do que um cerimonial político, fez de 2011 um ano muito rico. A marca das lições aprendidas dos dois lados do Mediterrâneo em 2011 sobre a democracia foi a da simetria.

O que as gentes árabes nos ensinam é que um orçamento cheio não chega para os anseios mais fundos das pessoas. É a sua distribuição que conta, mais que a sua dimensão. Os de baixo, aqueles que os rendimentos do petróleo, dos fosfatos ou da conveniência geopolítica nunca bafejaram, esses foram os que em 2011 vieram para as ruas clamar que nada tinham a perder a não ser a sua vida nua e denunciar que as oligarquias acabam sempre por jogar à defesa contra a grande maioria condenada a subviver. Na força bruta, as oligarquias mostram afinal a sua confrangedora fragilidade. A grande lição dos insubmissos de Tahrir, de Tunis ou de Damasco é a de que a liberdade é o avesso da oligarquia. E que, por ser assim, ela ou vai de mão dada com a redistribuição da riqueza ou pura e simplesmente sufoca às mãos de velhas e novas elites. Ficámos em 2011 a dever às massas árabes esse contributo essencial para a aprendizagem das condições da democracia.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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