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EUA libertam documentos sobre roubo de crianças na ditadura argentina

A Embaixada dos Estados Unidos na Argentina entregou à organização “Abuelas de Plaza de Mayo” um importante documento sobre a apropriação de crianças durante a última ditadura militar. Por Francisco Luque, correspondente em Buenos Aires da Carta Maior.
Avós da Praça de Maio conseguem uma vitória na luta pela reparação da memória e devolução da identidade às crianças desaparecidas. Foto antonio.giron/Flickr

Através da Chancelaria argentina, a representação norte americana pôs à disposição este material, que havia sido desclassificado parcialmente em 2002 e que, graças à gestão das avós, se conseguiu a desclassificação de três parágrafos inacessíveis até o momento.

Este documento havia sido requerido como prova para o processo relativo ao “Plano Sistemático de apropriação de Crianças” pela ditadura, pois seu conteúdo é fundamental para provar a existência de una política definida e organizada desde os altos comandos das forças armadas para que se levasse a cabo a apropriação de bebés de detidos desaparecidos.

O conteúdo do documento refere-se a uma comunicação entre o embaixador argentino à época, Lucio Alberto García de Solar e Elliott Abrams, funcionário da Secretaria de Estado desse país, realizada em 1982, em Washington, na qual informa que os desaparecidos estão mortos, mas que seus filhos foram entregues a outras famílias para serem criados e que a decisão do então presidente de facto Reynaldo Bignone era não rever o tema nem devolver as crianças.

A desclassificação destes documentos ocorre depois que em maio deste ano a Câmara de Representantes dos Estados Unidos rejeitou o pedido das avós para a abertura dos arquivos deste país sobre a última ditadura na Argentina. Naquela oportunidade, o presidente da Comissão de Inteligência da Câmara estadunidense, o democrata Maurice Hinchey, se opôs a abertura dos arquivos argumentando que “seria uma perda de tempo e de recursos para os organismos estadunidenses de espionagem, que necessitam concentrar esforços para desmantelar organizações como Al Qaeda”.

Estela de Carlotto, titular das Abuelas de Plaza de Mayo, qualificou de “agressivas” e “ofensivas” essas declarações e que a negativa impede “jogar luz sobre o desaparecimento de centenas de argentinos que foram roubados e nasceram em cativeiro”.

A associação civil Abuelas de Plaza de Mayo foi criada com o objetivo de investigar o paradeiro e reparar a memória e identidade das crianças roubadas como "botim de guerra" durante a ditadura. Estas crianças foram registradas como filhos próprios pelos membros das forças de repressão, deixados em qualquer lugar, vendidos ou abandonados em institutos como seres sem nome, NN. Dessa forma, sustentam as Abuelas, os fizeram desaparecer anulando sua identidade, privando-os de viver com sua legítima família, de todos seus direitos e de sua liberdade.

Até hoje, a organização conseguiu recuperar a identidade de 103 dos 500 bebés que se acredita que tenham sido apropriados ilegalmente.

A notícia da desclassificação do documento foi recebida com otimismo. Em um comunicado, as Abuelas celebraram o acesso a esta informação e agradeceram à Chancelaria argentina os mecanismos para obter os documentos , assim como também à embaixadora norte americana, Vilma Martínez, por sua boa disposição para levar adiante a desclassificação destes arquivos transcendentes.

Esperamos, diz o comunicado, que este seja o início da desclassificação de todos os documentos que estão nas mãos dos Estados Unidos da América, em particular das agências como a CIA e o FBI, para contribuir para o esclarecimento dos crimes de lesa humanidade ocorridos na Argentina.


*Originalmente publicado no site da Carta Maior

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