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O País em 2011: "País à rasca" saiu à rua

Mais de 300 mil pessoas juntaram-se num protesto inédito nas capitais de distrito, convocado nas redes sociais em nome da democracia e contra a precariedade que atinge boa parte dos trabalhadores jovens. A iniciativa teve sequência meses depois no protesto do 15 de outubro e numa iniciativa legislativa popular a apresentar no parlamento no início de 2012.
Em 2011, o país assistiu a uma mobilização gigantesca de cidadãos indignados. Foto Paulete Matos

Ultrapassando em muito as expectativas dos organizadores, o protesto de 12 de março trouxe gente de todas as idades à rua, e foi o maior sinal de alerta sobre a qualidade da democracia e o rumo da economia do país, com o aumento do desemprego e da precariedade.

O protesto juntou mais de 200 mil pessoas em Lisboa, 80 mil no Porto, 6 mil em Faro, 2 mil pessoas em Braga e muitas centenas nas restantes capitais de distrito. Até nas embaixadas portuguesas se reuniram dezenas de jovens emigrados, por não encontrarem em Portugal oportunidades de trabalho.

“Quisemos que as pessoas percebessem que a democracia não termina no direito ao voto. Quisemos que as pessoas percebessem que tinham direito a participar continuamente na democracia, a integrar movimentos cívicos e a defender os seus direitos”, afirmou Paula Gil, uma das promotoras da manifestação que ficou conhecida como da "Geração à Rasca".

O mal estar com a situação política e social do país na fase final do Governo de José Sócrates teve reflexos até no Festival da Canção, com a dupla de humoristas "Os Homens da Luta" a conseguirem vencer a concorrência através do televoto, para representarem Portugal na final do concurso na Alemanha com a canção "A Luta é Alegria".

A dimensão do protesto com estas características não voltaria a ser repetida, mas dois meses depois - já com o governo demissionário e a campanha eleitoral em marcha - aproveitando a iniciativa da acampada em Madrid, um grupo de estudantes espanhóis em Lisboa promoveu uma concentração de solidariedade que depressa se tornou na Acampada no Rossio.

Centenas de pessoas passaram a reunir-se ao fim de cada tarde em Assembleia e algumas delas pernoitaram na Praça. No manifesto aprovado, os participantes na acampada rejeitaram o resgate do FMI e juntaram a sua voz ao movimento internacional que começou na primavera árabe e viria a desenvolver-se até em Wall Street. A iniciativa estendeu-se também ao Porto.

No dia 4 de junho, dia de reflexão para as eleições legislativas, a polícia interveio no Rossio antes da Assembleia popular marcada, agredindo vários elementos presentes e apreendendo algum material utilizado nas Assembleias, como os toldos e o sistema de som. A intervenção foi condenada pelo próprio presidente da Câmara que tutela a polícia municipal e nunca foi encontrado o responsável pela ordem para aquela ação repressiva injustificável.

A mobilização ganhou novo fôlego com o apelo internacional para manifestações no dia 15 de outubro. Já com o PSD e o CDS no Governo e as medidas da troika a serem anunciadas em catadupa, muitas pessoas voltaram a sair à rua, com os organizadores a estimarem a presença de 100 mil manifestantes em Lisboa, rumo à Assembleia da República, onde subiram as escadarias e ali se sentaram para participar numa Assembleia popular. Ao contrário do que se viria a passar um mês depois, no dia da greve geral, a polícia não usou a repressão para impedir a ocupação das escadarias e a assembleia pôde decorrer sem incidentes.

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Resto dossier

O País em 2011

Este foi um ano marcado pela crise económica e política, com o país a ser entregue às mãos dos credores. À custa de cortes salariais e do desmantelamento dos serviços públicos, é o rendimento dos trabalhadores que se transfere para a banca do centro da Europa. Portugal não vai ter saudades de 2011. Dossier coordenado por Luís Branco.
 

O assalto da troika aos trabalhadores

O Governo de Passos Coelho assumiu que a sua receita é empobrecer o país e sacrificá-lo à troika na maior recessão desde 1975. As medidas subscritas pelo PSD, CDS e PS cortam salários, pensões e serviços públicos e aumentam o desemprego e a emigração.

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Direita junta maioria, governo e presidente

O velho sonho de Sá Carneiro foi concretizado, mas não da forma que o fundador do PSD imaginava. A direita gere o país como um protetorado e cumpre as ordens emanadas por Berlim e Bruxelas: mergulhar a economia na recessão e transferir a riqueza para os credores da banca europeia.

Greve geral mobilizou sociedade contra a austeridade

As medidas de austeridade no Orçamento de Estado para 2012 motivaram a convocatória de uma greve geral conjunta da CGTP e UGT, considerada a maior de sempre e que pela primeira vez contou com uma grande manifestação em Lisboa. Para a história fica também a intervenção policial, que reprimiu os piquetes de greve e infiltrou agentes provocadores na manifestação.

Os números escondidos da "ajuda" da troika

Só em juros e comissões, o país vai pagar mais de 35 mil milhões, quase metade do valor do empréstimo. E há 12 mil milhões que vão diretamente para a recapitalização da banca, poupando os seus acionistas a arriscar mais capital. Se lhe somarmos a transferência dos seus fundos de pensões para o Estado, a operação resulta num 'duplo jackpot' para os banqueiros, à custa dos sacrifícios dos trabalhadores.

Última maioria absoluta de Jardim teve sabor a derrota

Pela primeira vez desde o 25 de abril, o PSD/Madeira não conquistou os votos da maioria dos madeirenses. Depois duma campanha marcada pela descoberta da dimensão do buraco das contas da Região, Jardim conservou por escassa margem a maioria absoluta no parlamento.

Aumenta a repressão aos movimentos sociais

A violência policial em Portugal continuou a fazer manchetes em 2011 e pela primeira vez foi desmascarada a utilização de agentes provocadores em manifestações por parte da PSP, no dia da greve geral.

Governo aconselha jovens e professores a sair do país

Numa entrevista dada em dezembro, o primeiro ministro avisou os jovens que as suas pensões de reforma vão valer metade do que valem hoje e aconselhou os professores desempregados a emigrar para Brasil ou Angola.

Falsos recibos verdes em luta contra cobrança indevida

Depois de recolherem 12 mil assinaturas numa petição a contestar a cobrança de dívidas da segurança social que deviam ter sido pagas pelos patrões, os movimentos de precários não pouparam o ministro Pedro Mota Soares, que ameaçou os precários de prisão penhoras e pô-los a pagar num escalão acima do que seria devido.

Convenção de Lisboa lança Auditoria Cidadã à Dívida Pública

Cerca de 700 pessoas responderam no dia 17 de dezembro ao apelo para dar início ao trabalho de auditoria cidadã da dívida portuguesa. O objetivo é separar o trigo do joio e identificar os abusos que têm sido cometidos contra os interesses dos contribuintes para alimentar negócios milionários em proveito da banca e das empresas privadas.