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Subida de preços dos alimentos ameaça milhões

O alerta chegou em fevereiro: a FAO, Agência da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, advertiu que os preços dos alimentos atingiram em janeiro o nível mais alto desde 1990, para um conjunto de produtos básicos, ameaçando desencadear uma nova crise alimentar, como a registada em 2007 e 2008.
Hoje, os investidores podem clicar no sistema Bloomberg e apostar em qualquer coisa, do paládio ao óleo de soja, de biocombustíveis a rações para gado. Foto de janyneandd

E, tal como naqueles anos, a principal causa da crise alimentar é a especulação com bens alimentares, denuncia Olivier De Schutter, Relator Especial da ONU para o Direito à Alimentação. As ONGs de desenvolvimento resumiram o problema com uma fórmula simples: não é uma questão de não ter que comer, mas antes de não ter dinheiro para comprar comida.

O aumento da produção alimentar conseguido com a intensificação da agricultura trouxe significativos aumentos na produtividade agrícola, mas a fome continuou a aumentar. Os países menos desenvolvidos passaram de exportadores a importadores de alimentos e a sua população rural passou por um processo de proletarização, sendo cada vez mais composta por trabalhadores mal remunerados. Enquanto as empresas do sector agro-industrial registam aumentos nos lucros ano após ano, quase mil milhões de pessoas no mundo passam fome porque não têm como comprar alimentos nem como os plantar.

Em abril, os preços continuavam a subir, aproximando-se do máximo histórico registado pelo Banco Mundial em 2008. "É a maior ameaça aos pobres de todo o mundo: os elevados e voláteis preços alimentares", alertou Robert Zoellick, presidente do Banco, denunciando que aqueles números "contam uma história cruel e persistente, de uma pressão esmagadora sobre os pobres".

Zoellick alertou também para o facto de uma subida do preço dos alimentos em mais 10 por cento poder empurrar para a pobreza extrema mais 10 milhões de pessoas, que passarão a dispor de menos de 1,25 dólares por dia.

Em Maio, a ONG Oxfam previu, no relatório “Growing a Better Future” (Plantando um Futuro Melhor), que até 2030, o custo médio das colheitas consideradas chave para a alimentação da população global vá aumentar entre 120% e 180%.

Hoje produz-se comida para 12 mil milhões de pessoas, segundo a FAO, quando no planeta habitam 7 mil milhões. Comida, existe. Então, porque uma em cada sete pessoas no mundo passa fome?

A fome não é uma fatalidade inevitável que afeta determinados países. As causas da fome são políticas e prendem-se com quem controla os recursos naturais que permitem a produção de comida, e a quem beneficiam as políticas agrícolas e alimentares. O grande problema é que os alimentos se converteram numa mercadoria e a sua função principal, alimentar-nos, ficou em segundo plano.

Desde a explosão da bolha tech em 2000, a quantidade de dólares investidos em fundos de commodites (matérias-primas) aumentou em 50 vezes. Hoje, os investidores podem clicar no sistema Bloomberg e apostar em qualquer coisa, do paládio ao óleo de soja, de biocombustíveis a rações para gado. Mas o boom de novas oportunidades especulativas nos mercados globais de grãos, óleo comestível e carne criaram um círculo vicioso. Quanto mais sobe o preço das commodities de alimentos, mais dinheiro é injetado no sector, e mais os preços sobem. O fornecimento mundial de alimento, agora, não tem apenas que lutar com ofertas reduzidas e aumento de procuras, mas também com a tendência de alta artificial dos preços de grãos futuros inventada pelos bancos de investimento. O resultado: o preço de um trigo imaginário sobrepõe-se ao do trigo real.

Hoje, são os banqueiros e negociantes que se situam no topo da cadeia alimentar – os carnívoros do sistema, devorando todos e tudo abaixo deles. Perto da base, labuta o agricultor. Para ele, a alta no preço dos grãos deve ter representado um lucro inesperado, mas a especulação também gerou altas de preços em tudo o que o agricultor precisa comprar para fazer crescer a sua plantação – desde sementes a fertilizantes e diesel. E na base fica o consumidor. Para os 2 mil milhões de pessoas ao redor do mundo que gastam mais de 50 por cento do seu rendimento com comida, os efeitos são devastadores: 250 milhões de pessoas ingressaram nas fileiras dos famintos em 2008, elevando o total mundial de “alimentarmente inseguros” ao pico de mil milhões – um número nunca dantes visto.

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