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O direito à greve e as bilheteiras da CP

O que assistimos é inqualificável, a porta-voz de uma empresa do sector empresarial do Estado, ameaça com o não pagamento dos salários caso se realizem mais greves.

Temos assistido a declarações do Primeiro-Ministro dizendo que o Governo não coloca em causa os direitos constitucionais à greve e de manifestação. Até compreende que existam motivos de protesto, mas não temos outro caminho senão sofrer com a austeridade. Por vezes pensamos que já ouvimos tudo o que havia para ouvir, quando somos surpreendidos (?) pelas declarações da porta-voz da CP. Esta senhora habituou-nos com as suas declarações sobre os “imprevistos” na circulação de comboios em dias de greve, com os seus “balanços” que pendiam sempre para o número elevado de “composições em circulação” e pela minimização do impacto das greves no sector dos transportes. Mas, esta semana, a porta-voz da CP despiu a farda de relações públicas e envergou a farda de capataz que ameaça e faz chantagem com os trabalhadores ferroviários: Se as greves continuam não será possível pagar salários, pois o pagamento dos salários depende das receitas da bilheteira que são profundamente abaladas com a realização das greves. Afinal as greves têm impacto, é a primeira conclusão que se deve tirar.

O recurso à greve, é a forma de luta a que trabalhadores e trabalhadoras recorrem para fazer valer os seus direitos, não é novidade para ninguém. E que dão prejuízo, também não é novidade. E que as empresas ficam com o valor do salário desses dias também todos sabemos, a começar pelos grevistas que veem o seu salário emagrecido pelo desconto do dia, pelo desconto dos subsídios de refeição e outros a que eventualmente tenham direito, pela penalização da sua assiduidade. Quem faz greve é penalizado financeiramente!

Mas quem faz greve sabe que provoca prejuízo financeiro à entidade patronal, como sabe que é assim que pode fazer valer as suas reivindicações, é aliás o único meio de as fazer valer. A história mais distante ou mais recente aí está para o provar.

Mas aquilo a que assistimos é inqualificável, a porta-voz de uma empresa do sector empresarial do Estado, ameaça com o não pagamento dos salários caso se realizem mais greves. É caso para perguntar: onde está a Administração da CP e o seu Presidente? Quem fala pela empresa sobre questões laborais? E o Ministro da tutela, o que tem a dizer?

Um dos motivos da greve marcada pelos maquinistas prende-se com os processos disciplinares que a empresa levantou em sequência da greve geral de 2010, aos quais, muito provavelmente, se irão juntar outros pela greve geral de 2011. Trata-se de defender o direito à greve. Já este ano os serviços mínimos decretados para o sector dos transportes foram deliberadamente exagerados. O Governo bem sabe a importância deste sector numa paralisação geral e tenta, por todos os meios, diminuir o seu impacto. Processos disciplinares, serviços mínimos que de mínimos só têm o nome e agora chantagem com o salário.

Mas falemos também sobre as receitas de bilheteira que a empresa diz cobrirem as “despesas correntes” e não somente os salários. As receitas de bilheteira são atingidas quando se fecham linhas, se suprimem serviços, se diminuem o número de comboios e o número de carruagens. Hoje mesmo começam os “ajustamentos” (eufemismo utilizado pela porta-voz) que reduzem a oferta na zona da Grande Lisboa e no Sul do país. De há muito que as receitas das bilheteiras da CP vêm diminuindo. Até o fecho de muitas estações tem contribuído. Mas há também outro aspeto que tem contribuído: o aumento do preço dos bilhetes. É o próprio Presidente da CP que o reconhece em recente entrevista à revista do Grupo CP: “Na sequência dos últimos aumentos do tarifário, sabemos desde já que os mesmos não se repercutiram em igual percentagem nas receitas da Empresa. Embora Agosto seja um mês atípico, há indícios de que a procura teve uma elasticidade negativa em relação ao preço algo significativa. Apesar da tarifa ter aumentado em média cerca de 20% (5% em Janeiro e 15% em Agosto), o aumento mensal homólogo da receita ficou pelos 8%”, afirma José Benoliel.

Com estas políticas não há recuperação, só descarrilamento de um meio de transporte estruturante para a mobilidade nacional. O desmantelamento da CP enquanto empresa única do sector ferroviário, anos seguidos de má gestão e opções comerciais erradas deram o resultado que está a vista. Claro, culpabilizar as greves é fácil, mas as receitas das bilheteiras, essas, vão continuar na sua vertiginosa caminhada para o abismo.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Vereadora da Câmara de Torres Novas. Animadora social.
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