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Capitalismo e Xenofobia

O liberalismo alia-se ao nacionalismo e à xenofobia para criar estigmas sociais e culturais.

Ao participar num júri de provas de doutoramento em Sociologia sobre transições juvenis para a vida adulta, apercebi-me, pela sagaz demonstração da candidata, que existem um conjunto de pré-noções (ou “preconceitos científicos”) sobre a forma como este fenómeno se desenrola nos países do Sul. Muitos investigadores interpretam apressadamente a idade tardia com que os jovens portugueses saem de casa dos pais com uma suposta tradição cultural e religiosa de apego à família. Na verdade, como a candidata demonstrou, tal deve-se, antes de mais, à ausência de um mercado habitacional de arrendamento a preços protegidos o que, juntamente com os fracos rendimentos das famílias, o subemprego juvenil, as elevadas despesas com a educação e a desagregação do nosso já frágil estado-providência, explica este retardamento da autonomia.

Dei-me conta, então, da ligação que existe entre estes estereótipos e a visão hegemónica que o liberalismo pretende impor sobre os países do Sul da Europa, os mesmos que sangraram demograficamente aquando da reconstrução pós-guerra da França e da Alemanha, fornecendo contingentes massivos de mão-de-obra barata. Apresentam-se os povos do Sul dentro do casulo de uma essência: são preguiçosos por natureza; pouco ou nada produtivos; distanciados da ética do trabalho; incumpridores; irresponsáveis. Como tal, devem ser punidos.

O liberalismo alia-se ao nacionalismo e à xenofobia para criar estigmas sociais e culturais. Chegou, pois, a altura dos povos do Sul da Europa, em conjunto com as massas críticas do Norte, fazerem um movimento internacionalista em torno da auditoria da dívida, demonstrando as suas dimensões ilegítimas e especulativas, desmontando os labirintos do dinheiro, provando que todos, mas todos, estamos a ser sugados pela espiral vertiginosa dos grandes bancos centrais atrás dos quais se escondem poderes tantas vezes sem nome, tantas vezes sem rosto, mas com porta-vozes como Merkel e Sarkozy. À deriva do castigo, que recupera a metáfora do paterfamilia, que pretende reeducar pelo medo e pela tortura os filhos rebeldes, devemos responder com a realidade dos factos históricos, aliando a demonstração da formação do lucro no capitalismo financeiro, com a denúncia de um xadrez geopolítico onde o darwinismo se aplica às classes sociais e aos povos.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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