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Naufrágio

Os homens que 'lavram' o mar estão habituados a lidar com o infortúnio. Isso é uma coisa. Outra coisa é o aproveitamento dum naufrágio para parangonas sobre um 'milagre' ou para enaltecimento dum autarca.

Os ecrãs da TV cheios, em tempo e espaço, com notícias sobre o naufrágio duma embarcação das Caxinas. Notícia foi e teria de ser. Com este aproveitamento é que francamente não.

O dirigente da Associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar colocou de imediato o dedo na ferida ao apontar o facto de a Direção-Geral de Pescas não ter tornado obrigatório o uso de sistemas automáticos de deteção em embarcações como a que naufragou na terça-feira passada. Mais, lucidamente, refere que o Estado só perde, financeiramente falando, pelo custo das operações de salvamento que se evitariam com a comparticipação proposta pela Associação nesses sistemas de segurança, negada em 2009.

Mas este facto foi muito pouco relevado pela comunicação social em geral, pela RTP em particular. Repórteres dessa estação foram ao ponto de fazer perguntas enviesadas, já contendo a resposta, do tipo: “Então acha que isto foi um milagre?” sem que até aí os próprios entrevistados tivessem usado essa palavra nas suas declarações registadas. Ninguém duvida que circulasse um discurso religioso entre a população mais próxima dos pescadores desaparecidos, sobretudo no momento exato em que familiares e vizinhança se juntavam solidariamente, irmanando-se em práticas de apoio mútuo, alento e religiosidade.

Outra coisa bem diferente é que profissionais da informação avancem eles próprios essa interpretação. Pior ainda, numa estação de serviço público.

E ainda outra coisa é assistir-se ao confrangedor espetáculo dum autarca, que no espaço televisivo ganha estatuto de primeiro plano, para falar sobre matéria que não é do seu âmbito de intervenção política. 'Emplastros' políticos dão a estas cenas de sofrimento e miséria humana – porque se trata de gente trabalhadora, pobre, homens bem gastos pela idade e pelo trabalho, como se verá depois com as imagens do retorno a casa dos pescadores – uma dimensão de insuportável aproveitamento.

E se, curiosamente, nessas mesmas reportagens não são membros do clero a fazer aproveitamento do acidente interrogo-me sobre o porquê de tal atitude por parte de jornalistas? Porque alimentam noções populistas sobre crenças religiosas, sobre os modos de vida dessas populações? Pelo gosto de explorar o exótico nessas comunidades, pelo cultivar dum certo olhar condescendente e paternalista? Ignoram bem, então, que o povo comenta que 'até as igrejas têm para-raios'.

Mau serviço jornalístico, má imagem para o poder local. Mas acima de tudo uma oportunidade desperdiçada de debater a segurança no trabalho a sério. Com a seriedade que as vidas de quem trabalha exige.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora em sociologia da cultura
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