You are here

A televisão de alguns para alguns

A manutenção de um canal público sem publicidade, no caso português e com este governo, significa simplesmente que não vai ter financiamento para programação de grandes audiências.

A única decisão pública do Governo sobre a RTP até ao momento é a de que um dos canais será vendido e o restante não terá publicidade.

Isto significa provavelmente que o canal 1 é vendido e que o canal 2, não tendo acesso a receitas de publicidade, não fará programação generalista. De todas as hipóteses esta é a pior de todas. Explico porquê.

A televisão pública sem audiência não faz sentido. A RTP2 é sem dúvida serviço público, serviço de excelência de apoio à produção e à difusão alternativa, de diferentes formas estéticas, a sua existência é essencial no panorama português, mas não é um canal de massas. E é de uma saloice profunda achar que o serviço público de televisão, na sua missão cultural, não tem o dever de procurar a grande audiência. E lamento, mas essa procura também se faz pelo Preço Certo, pelo Quem quer ser milionário e pelo futebol. Podemos discordar da programação, de ela ser melhor ou pior, e é bom que se discuta porque é o nosso dinheiro que a sustenta, mas isso não invalida que deve ter programação generalista.

Retirar a publicidade do canal público que se mantiver levanta dois enormes problemas.

Primeiro, sem publicidade não há programação de grandes audiências. A manutenção de um canal público sem publicidade, no caso português e com este governo, significa simplesmente que não vai ter financiamento para programação de grandes audiências. Isto significa que deixa de haver um único canal generalista que escapa à lógica da rentabilização forçada e, em todos os países onde os canais privados tomaram por completo o mercado a consequência foi uma hegemonização furiosa da programação, um fenómeno que já se observa entre os canais privados portugueses e que apenas se acentuará.

Em segundo lugar, a televisão pública é quem na verdade regula a quantidade e o valor da publicidade. Limitando os minutos disponíveis cria um standard mínimo a que o mercado tem de obedecer, o que evita por um lado demasiada publicidade, por outro mantém um preço mínimo e, por consequência, garante standards de qualidade e diversidade da própria publicidade. Porque a publicidade é hoje também indissociável da cultura televisiva é importante que exista uma televisão pública que garante a sua qualidade também.

O que é público, o que é do Estado, tem a obrigação de estar ao alcance de todos. Não é apenas por razões economicistas que este governo decide ter um canal restrito, isto representa antes uma cartilha cultural bafienta que subsiste nas elites do PSD, que acha que o estado existe mais para uns do que para outros. Não é por isso de estranhar o silêncio ensurdecedor do secretário de estado da Cultura sobre o assunto.

Sobre o/a autor(a)

(...)