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O “visto familiar” é assim uma coisa que ninguém vê

Seria até interessante conhecer o “visto familiar” que o Conselho de Ministros produziu (trata-se de uma avaliação, nas próprias palavras do Governo) sobre o impacto do corte nos salários e nos subsídios em relação ao “estímulo à natalidade”.

A tímida máscara da “preocupação social” do Governo não resiste perante a violência das medidas que empobrecem as pessoas e arrastam as condições de vida das famílias para níveis que colocarão Portugal na cauda dos países desenvolvidos.

O Governo vai escolhendo alvos – os beneficiários das prestações sociais, os trabalhadores e trabalhadoras da Administração Pública, os desempregados, os precários. Nas últimas semanas o Ministro da Economia e do Emprego, não tem poupado esforços a atacar as empresas públicas de transporte e os “privilégios” dos seus trabalhadores, encontrando aqui, imagine-se, a culpa da gestão ruinosa e da dívida destas empresas.

Estamos perante uma situação em que o Governo ataca em duas frentes: quer reduzir drasticamente a oferta de transportes públicos, aumenta os preços, destrói o passe social (a última novidade é acabar com o desconto para jovens e pensionistas, levando à duplicação do valor do passe) ao mesmo tempo que prepara despedimentos nas empresas públicas e retira os direitos conquistados.

A CP é das poucas empresas que mantém em funcionamento infantários que servem os seus trabalhadores e trabalhadoras, assim como os da REFER e da EMEF. Todos pagam uma mensalidade pela permanência dos seus filhos e filhas. Pois bem, o Governo quer fechá-los. Já anunciou o encerramento do infantário da Parede e pelo andar da carruagem seguir-se-á o do Barreiro, com uma reunião já agendada e o do Entroncamento fica na calha.

Fecham-se as linhas, preparam-se despedimentos e de caminho vão já os infantários. Porque essa coisa de ser obrigação da empresa garantir locais para os filhos dos trabalhadores é coisa de ricos.

A “máscara social” do Governo está colada com cuspo. Diz o programa do Governo: “Entendemos que as preocupações das famílias são transversais e estão presentes em todas as áreas da governação. Por isso, qualquer iniciativa que seja aprovada em Conselho de Ministros requer a prévia aposição do ‘visto familiar’, ou seja, uma avaliação quanto ao impacto que tem sobre a vida familiar e o estímulo à natalidade”.

Seria até interessante conhecer o “visto familiar” que o Conselho de Ministros produziu (trata-se de uma avaliação, nas próprias palavras do Governo) sobre o impacto do corte nos salários e nos subsídios em relação ao “estímulo à natalidade”… ou no caso da facilitação dos despedimentos… ou até o aumento do IVA, e por aí fora…

Não se conhece, nem nunca se virá a conhecer, porque não passaram de palavras vãs, demagógicas. As famílias não são nem prioridade, nem preocupação. E as crianças também não. Por isso se mudaram as regras das creches voltando ao modelo “armazém de crianças”, por isso pouco importa quanto tempo será gasto na sua deslocação e em que condições, importa, pelo contrário, reduzir o apoio social escolar e cortar o abono de família.

Nunca se viu preocupação familiar como esta.

A nossa indignação também passa por aqui e na Greve Geral têm lugar todos os motivos.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Vereadora da Câmara de Torres Novas. Animadora social.
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