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Sangue nos Trackpads

Num monólogo de duas horas, actor traça o percurso da Apple e denuncia as condições de fabrico dos seus aparelhos, lembrando que os consumidores podem exigir que os trabalhadores sejam tratados como seres humanos. Por Peter Certo
Milhares e mais milhares de empregados em pé e a trabalhar em silêncio total durante doze ou mais horas de cada vez, muitas vezes cansados com dores nas costas. Caratz da Greenpeace Switzerland

Pode ser uma sensação peculiar e um tanto inquietante escrever num computador portátil hoje em dia. Como dispositivo computacional pessoal que pode mais ou menos ser transportado, um computador portátil torna-se uma extensão do ser humano que o carrega por aí e com ele opera. As capacidades da máquina são transplantadas para o utilizador, mesmo que a sua presença física constante o apresente quase como um apêndice. Quanto mais verdadeiro isto se torna na era do telefone inteligente, que é mais capaz, mais portátil e ainda mais colado ao corpo que o usa.

Como diz o actor Mike Daisey "já somos cyborgs".

Mas por muito ligados que nos tornemos aos nossos dispositivos, por muito que venhamos a empregá-los como extensões de nós próprios, as nossas mãos não são as únicas que trataram os nossos dispositivos. Eles também foram montados, testados, passados por outras mãos – muitas vezes por pequenas mãos, mãos cansadas, mãos calejadas. Enquanto a embalagem lustrosa de um novo iPad ou MacBook poderia sugerir uma proveniência divina ou imaculada, esses e praticamente todos outros dispositivos electrónicos foram criados por mãos humanas.

Daisey, autor e performer com um ecléctico corpo de trabalho sobre política, história e consumismo, recentemente concluiu uma série de quatro semanas de espectáculos em Washington, DC, no Woolly Mammoth Theater. “A Agonia e Êxtase de Steve Jobs”, um monólogo de duas horas, traça o percurso da Apple, de empresa-pirata de dois homens até uma das maiores, mais secretas companhias de tecnologia do mundo. Através de exposições cuidadosas e explosões humorísticas, Daisey faz a crónica de aproximadamente três décadas de avanços, erros graves, atribulações e triunfos, retratando a atenção arrebatada e o investimento comicamente emocional de um verdadeiro crente e muitas vezes crítico fervoroso – retratando-se, realmente, a si mesmo. Comparando a Apple a um cônjuge abusivo, ele compara os seus seguidores – que aturam uma linha de produtos imprudente após outra para acabarem a abraçar a companhia quando ela se redime com algo brilhante – a mulheres vítimas de violência. Mas Daisey descobre um fascínio por aqueles membros da família Apple que estão, se conseguirmos acreditar nisso, mais ofendidos do que os seus consumidores.

Estender as mãos sobre o Pacífico

A viagem de Daisey começa quando um utilizador de iPhone descobre fotografias no seu novo telefone, ao que parece deixadas depois de testes na fábrica. O interesse de Daisey é espicaçado. Ele conta a sua estupefacção por seres humanos reais construírem os dispositivos nos quais ele e tantas outras pessoas confiam. Prescindindo de quaisquer ilusões que tivesse sobre robôs do tipo Honda, rápida e meticulosamente a montar os nossos dispositivos electrotécnicos, Daisey chega à conclusão de que as mãos continuam muito mais baratas do que as máquinas em países como a China. Contrariamente à nostalgia de consumidores ocidentais sobre o fim de produtos "feitos à mão", Daisey afirma que mais produtos são feitos à mão agora do que em qualquer outro ponto da história.

Talvez não seja novidade para observadores mais astutos da indústria e do capitalismo global. Mas compreender um facto e confrontá-lo são duas coisas diferentes. Mike Daisey escolhe a última.

Fazendo-se passar por um investidor americano, Daisey viaja de facto até à China – mais especificamente, à "Zona Económica Especial" em expansão de Shenzhen. Ainda em 1970, Shenzhen era uma pequena aldeia piscatória albergando não mais do que talvez algumas centenas de residentes. Em 1979, as autoridades chinesas designaram a cidade "Zona Económica Especial", a qual Daisey caracteriza como um espaço no qual os grandes grupos económicos estrangeiros podem tratar os seus trabalhadores e o meio ambiente em redor conforme lhes apetecer – tudo o que for necessário para produzir uma "China moderna",

Hoje Shenzhen é uma cidade de uns 9 milhões de pessoas e a maior base industrial do mundo. Enfeitada com painéis publicitários do tamanho de torres e complexos industriais imponentes em betão, Shenzhen parece-se, na caracterização colorida de Daisey, "com um Blade Runner que vomitasse por si abaixo”.

Shenzhen alberga também o complexo em expansão da Foxconn, que emprega mais de 400 000 trabalhadores que supostamente fazem metade de todos os dispositivos electrónicos no mundo. Os clientes da Foxconn incluem, entre outros, a Hewlett-Packard, Dell, Microsoft, Sony, Nintendo, e, claro, a Apple. O complexo tornou-se notícia no ano passado por uma vaga perturbadora de suicídios de trabalhadores.

Dentro de Shenzhen

Prosseguindo a sua farsa como investidor americano – incluindo partes humorísticos sobre os seus cartões de visita empresariais obviamente falsos e a sua aversão visceral a apresentações PowerPoint ― Daisey dá a volta à fábrica, às suas cafetarias e dormitórios. Ele narra ter visto milhares e mais milhares de empregados em pé e a trabalhar em silêncio total durante doze ou mais horas de cada vez, muitas vezes cansados com dores nas costas, por vezes deixando propositadamente cair uma coisa apenas pelo alívio momentâneo de dobrar-se para a ir buscar apesar da reprimenda inevitável dos supervisores ubíquos. Ele descreve dormitórios com pilhas de camas com beliches às vezes com uma dúzia em altura, tudo sob o olhar vigilante de câmaras de segurança visivelmente colocadas.

Conduzindo entrevistas fora da fábrica por entre redes de suicídio recentemente instaladas (a versão da Foxconn do que é "responsabilidade corporativa", diz ele), Daisey fala com dezenas de empregados que estão repentinamente ansiosos para compartilhar as suas histórias – uma tarefa estranhamente audaciosa dados os relatos anteriores de um fotógrafo que é espancado fora do complexo. Um empregado feriu a mão num acidente fabril e em vez de ser indemnizado foi despedido. Vários funcionários falam de um empregado que morreu depois de trabalhar num turno de 32 horas. E uma mulher diz que foi despedida e colocada na lista negra depois de comunicar horas extras não pagas ao conselho de trabalho local. Muitos dos trabalhadores são crianças – 11, 12, 13 anos. "Você realmente pensa que a Apple não sabe?" questiona-se Daisey.

Tendo habilmente empregue o humor para ganhar a atenção e simpatia do seu público, Daisey partilha as histórias desses trabalhadores num teatro completamente silencioso, uns minutos antes, apenas, cheio de gargalhadas. É neste momento que o seu meio teatral parece ser o fórum mais apropriado para esta espécie de jornalismo bizarro. Tais histórias podem entorpecer um público meio gasto da imprensa ou entre paredes de uma estóica, extremamente séria sala de conferências. Mas num espaço onde as pessoas escutaram e riram em conjunto, elas transmitem um impacte muitas vezes perdido noutros modos do activismo.

O relato de Daisey sobre a Shenzhen moderna – um lugar em expansão, de crescimento excessivo, poluído e completamente assustadora – encapsula muito bem a escala dos vícios do capitalismo global. Confrontado com Shenzhen, um consumidor parece apenas uma pequena mancha, obscurecida pelos edifícios de betão do excesso corporativo apoiado pelo poder estatal.

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Não vá ficar o público a sentir-se impotente – ele promete-lhes, ao fim e e ao cabo, que voltarão aos seus MacBooks e "verão o sangue a borbulhar pelo teclado!" – Daisey prossegue insistindo que os consumidores têm uma quantidade tremenda de poder para forçar modificações nas companhias de que são clientes. Ele lembra-nos que, se não fossem as exigências dos consumidores, nenhum grande grupo económico alguma vez se modificaria. De facto, assegura-nos que as companhias como a Apple começaram a comprometer-se com práticas mais amigas do ambiente, por exemplo, apenas por causa da pressão dos consumidores. O que poderá acontecer se os consumidores exigirem que os trabalhadores que fazem os seus produtos sejam tratados como seres humanos?

Voltar aos nossos dispositivos depois de tal actuação é coisa desconfortável. O computador portátil no qual escrevi esta peça, borbulhando sangue e tudo, não é excepção. Mas se nada mais, especialmente considerando a debilidade total da electrotécnica comercial justa, esses dispositivos representam a nossa "aquisição de interesses na empresa"2, as plataformas em que devemos sustentar-nos para exigir práticas mais humanas aos grandes grupos económicos que fazemos enriquecer. Espera-se que isto não seja uma mera auto-ilusão.

E talvez possamos dar um passo naquele novo iPad.

Peter Certoé assistente de pesquisa no Foreign Policy In Focusonde este artigo originalmente apareceu.

Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

i1 Trackpads são as superfícies sensíveis ao toque que substituíram os ratos nos computadores portáteis: aqui trata-se de trocadilho com «blood on the track» sangue num rasto, como numa situação de crime

2 No original «buy in», significando à letra comprar ações ou compra de empresas por gestores que não trabalham lá

Monologist Mike Daisey

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