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Moral e Consequências

Ler 'As Consequências Económicas da Paz', de John Maynard Keynes, ajuda a entender a fúria moral e ideológica do capital centro-europeu e a forma como está a lidar com as economias periféricas.

A seguir à primeira Grande Guerra foi instituída a Comissão de Reparações de Guerra, sediada em Paris. Controlada pelas potências aliadas e com um corpo de funcionários megalómano esta instituição recebeu poderes extraordinários sem qualquer escrutínio público ou democrático. A sua função era garantir que as potências aliadas seriam plenamente ressarcidas pelos prejuízos causados pela guerra. Na prática isto significava saquear economicamente as potências derrotadas e garantir que as suas economias jamais recuperariam o fôlego anterior a 1914. Uma lista breve das suas competências é ilustrativa do deboche moral dos vitoriosos: definir o montante exacto de indemnizações; definir o calendário de execução da dívida; alterar o calendário conforme a alteração das circunstâncias o justifique; verificar a capacidade de pagamento da Alemanha e alterar o sistema alemão de taxação; definir o pagamento seja de que forma for (géneros, matéria-prima, produtos financeiros, etc.) com o poder de exigir a entrega de qualquer propriedade em posse alemã; expropriação de toda e qualquer participação alemã em empresas estrangeiras (mas as dívidas correspondentes continuariam a ser alemãs); definir o valor da propriedade cedida e atribuir o crédito correspondente a abater na dívida total de indemnizações de guerra alemã;definir as contribuições anuais de bens e produtos que a Alemanha teria de realizar; receber, administrar e distribuir todos as entregas alemãs em dinheiro, bens e produtos; lançar e vender títulos de dívida alemães; gerir a dívida pública dos territórios ocupados e cedidos (ou seja, definir qual a parte da dívida que cabia à Alemanha); emitir relatórios periódicos da taxa de cumprimento alemã e definir métodos de coerção incluindo ocupação militar de qualquer parte ou totalidade do território alemão; o Governo alemão teria apenas o poder de emitir opiniões não-vinculativas sobre as decisões da Comissão. Tanto a fórmula de cálculo como o montante final das indemnizações a serem suportadas pelo povo alemão eram insanos. O resultado foram anos de humilhação social profunda com consequências desastrosas menos de duas décadas depois.

É impossível não estabelecer o paralelo com os dias de hoje. A troika é a Comissão de Reparações de Guerra. Os nossos salários, as nossas pensões, os nossos hospitais, os nossos postos de trabalho, as nossas estradas, as nossas casas, tudo está sujeito ao poder indiscriminado de uma clique de saqueadores de olhos azuis. Durante a década de 1920 o governo alemão decretou sucessivos cortes salariais e aumento de impostos numa estratégia que chegou ao ponto de, não podendo o país importar manteiga, foram sujeitos os trabalhadores das minas do Ruhr a trabalhar mais uma hora diária para pagar pela importação de manteiga (os trabalhadores das minas tinham no entanto o privilégio de ser os primeiros a receber manteiga). O Governo português anuncia mais 30 minutos de trabalho diário, mais trabalho pelo direito à sobreviência que esse ainda não nos tiraram.

Os Aliados diziam aos Alemães 'vocês provocaram a guerra, agora paguem'. Os Alemães dizem-nos hoje 'vocês viveram acima das vossas possibilidades, agora paguem'. Mas se é indesmentível que os alemães provocaram realmente a Grande Guerra, dizer hoje que as economias periféricas do Euro se endividaram de forma incompetente é um abuso da verdade que serve única e exclusivamente os interesses do capital centro-europeu. É uma farsa. A produtividade dos portugueses aumentou consistentemente nos últimos anos, o gasto per capita em serviços públicos é menor nos países periféricos do que no centro, os portugueses, gregos trabalham mais horas do que no centro da Europa, simplesmente recebem menos e vão passar a receber ainda menos.

Por tudo isto mas sobretudo pela humilhação da mentira a indignação profunda dos povos tem razão de ser e ela está aí. A batalha pela verdade é o único caminho europeísta de esquerda, ela continua dia 24 de Novembro, uma greve de todos por todos.

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