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Austeridade inteligente

O PS já tem o caminho traçado até à esperada viabilização do Orçamento do Estado que coloca Portugal na maior recessão de que há memória na nossa história democrática.

António José Seguro pediu no domingo uma “austeridade inteligente”, como receita para que Portugal não caminhe para uma situação económica como a da Grécia. Diz também o líder do PS que “há alternativa à austeridade, mas não se pode cortar tudo por igual”, talvez numa tentativa de se distanciar das palavras de há dias do Presidente da República, em que a crítica sobre uma violação da equidade fiscal nos cortes dos subsídios nos próximos anos só pode ser entendida como um nivelamento por baixo de todos os rendimento dos portugueses e uma carta verde aos privados para que sigam a mesma bitola dos cortes.

Mas o PS já tem o caminho traçado até à esperada viabilização do Orçamento do Estado que coloca Portugal na maior recessão de que há memória na nossa história democrática: a abstenção tem de ser justificada com a ideia de que com os socialistas tudo seria melhor ou pelo menos, menos mau. Ou, vistas as coisas por outro prisma: o PS está vinculado às medidas da troika, e publicamente amarrado ao PSD, quer continuar a agir como se nenhuma responsabilidade tivesse sobre o caminho a que conduziu o país para o descalabro financeiro, nem sobre o futuro negro que está para vir.

Assim, mantém-se uma espécie de tabu até à decisão final sobre o OE, enquanto se dispersam as atenções, se anunciam reuniões com os parceiros sociais e órgãos internos, porque se alimenta essa ideia de distanciamento artificial.

Seguro chegou até a precipitar-se sobre o seu apoio ao OE, mas percebeu-o rapidamente. Num dia dava como garantido o apoio, com a reduzidíssima possibilidade de 0,001 por cento de o inviabilizar, ainda que desconhecendo as suas medidas mais penalizadoras. No outro surgiram os cortes nos subsídios, que rapidamente se tornarão extensivos a todos os trabalhadores e permanentes, e na eventualidade do protesto social subir de tom, tinha de haver um paliativo, um movimento de distanciamento.

Perante a necessidade do PS descolar do passado recente, Ferro Rodrigues veio mesmo puxar por Seguro e defender o voto contra no OE caso o Governo não aceite as alterações dos socialistas. Ferro insiste também em pedir a demissão do governo caso as medidas de austeridade anunciadas para dois anos se mantenham.

É urgente ao PS limpar a sua imagem. E descolar do PSD. E é disso que se trata na criação desta “austeridade inteligente”. É cumprir a troika e ajudar o PSD a alcançar as metas estabelecidas, doa a quem doer. Mas que ninguém note. Com pezinhos de lã.

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