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Economia ao fundo

O governo não tem solução para a saída da crise. Não há economia que cresça nem ideia para a competitividade que se salve com as políticas que estão anunciadas.

O Ministro da Economia proclamou: “Não se pode pôr a economia a crescer por decreto”. Pois não, mas pode-se acabar com ela através de uma Lei, neste caso a Lei do Orçamento de Estado para 2012, que passa ao largo da economia, ignora a necessidade de investimento e promove a recessão, que, pelo certo, só traz desemprego.

O governo não tem solução para a saída da crise. Não há economia que cresça nem ideia para a competitividade que se salve com as políticas que estão anunciadas. A semana foi recheada de comentários, uns querem distanciar-se prudentemente das medidas anunciadas, outros enviam os já célebres “recados”, envoltos num véu, para que não se perceba exactamente o que querem dizer, como é o caso do presidente Cavaco Silva, outros esforçam-se a agitar a bancarrota e a ameaça de que não haverá dinheiro para pagamento de salários para justificar os “sacrifícios” e, até José Pacheco Pereira, num esforço de análise, enuncia a alternativa da renegociação da dívida, ao mesmo tempo que logo prevê o apocalipse imediato não só da economia, como das liberdades – ficaríamos sob o jugo do “totalitarismo” de esquerda. A solução é cumprir agora, para depois pedir a renegociação da dívida.

Bom, há que reconhecer que já quase ninguém acredita que isto vai lá sem uma renegociação da dívida. Há cinco meses atrás, na campanha eleitoral, quem falasse de renegociação da dívida era apelidado de “caloteiro”. Como há uns anos atrás quem defendia a taxa Tobin era um perigoso esquerdista e hoje ouvimos Durão Barroso a falar (só falar) em taxar as transacções financeiras… e até em eurobonds, “coisa” que a elite da comissão europeia abominava…

Muito se tem falado também na responsabilidade dos políticos que devem ser penalizados pelas decisões que tomam. Se a taxa sobre as transacções financeiras tivesse sido aplicada há uma década atrás, qual seria a situação hoje? Os partidos que resistiram a taxar mais-valias, lucros e transacções financeiras para off-shores devem ser responsabilizados pelo agravamento da pobreza a nível mundial. Bem podem alguns clamar hoje contra a “injustiça dos mercados”, mas sempre capitularam perante a vontade do capital financeiro.

No passado dia 17 de Outubro assinalou-se mais um dia mundial pela erradicação da pobreza. Deveria ser o dia mundial da vergonha. Os compromissos deste governo com os pobres são uma afronta. “As pensões mínimas não são congeladas, não esquecemos os mais pobres”, diz o Ministro da Caridade. A lembrança vale 0,19 cêntimos/dia.

O desemprego vai aumentar para números nunca antes vistos e a verba global para o subsídio de desemprego baixa no Orçamento. Pobres ou futuros pobres, aqui têm, o que se pode oferecer.

A teoria de que temos que cumprir para depois renegociar é a nova vaga dos vendedores da banha da cobra. Com uma diferença, a banha da cobra não tinha efeito nenhum, só ilusão e esta “nova” teoria leva-nos para o fundo. Cinco meses de aplicação do memorando da “troika” colocou o país nesta situação, dois anos de medidas muito para além das exigências da “troika” não deixarão pedra sobre pedra. Seremos um país endividado, pobre, sem serviços públicos e sem direitos.

A indignação e o protesto têm que dar corpo e força à alternativa.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Vereadora da Câmara de Torres Novas. Animadora social.
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