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O governo dos sábios

O governo dos sábios pode nada saber sobre a vida concreta dos homens e mulheres concretas, mas sabe, do alto da sua ciência certa, que nada mais existe para além dos parâmetros que definiu como sendo o mundo.

O governo de sábios assume-se como eficaz e neutral. A sua preocupação é o bem público. A sua ciência, de rigor implacável, a economia neoclássica. Movem-se, os sábios, em mil “lugares neutros” onde escondem a sua filiação de classe e falam como especialistas altamente credenciados e consagrados pelo mérito das suas carreiras. Ei-los em seminários, congressos, universidades e nos corredores de Bruxelas e Washington, manobrando os dossiês com minúcia.

A grande preocupação do governo de sábios é estabelecer os limites do necessário: é necessário fazer o ajuste orçamental; é necessário multiplicar a austeridade, é necessário aumentar a competitividade baixando os custos do factor trabalho; é necessário um choque administrativo….A sua filosofia é a do management global onde há muito se esgotou a concepção da política como discussão e construção de futuros alternativos. Se só existe o necessário – se cumpri-lo é inevitável - , então, no fundo, nada mais podemos senão desejar e querer o “necessário” – as “reformas”, os “choques”, “as mudanças”.

O governo dos sábios pode nada saber sobre a vida concreta dos homens e mulheres concretas, mas sabe, do alto da sua ciência certa, que nada mais existe para além dos parâmetros que definiu como sendo o mundo. E governa sob o vento da mudança, qual timoneiro das vanguardas tecnocratas da exploração.

As novas formas de dominação podem já não falar desabridamente em “quebrar a espinha dos sindicatos”, como fazia Thatcher nos idos anos oitenta do século passado. Mas urdem uma silenciosa trama em que imaginam um povo que não manda, não quer mandar e quer que mandem por ele.

Contra o governo dos sábios, importa escancarar a sua janela de fraqueza: abrir as asas da imaginação para que mil tumultos floresçam.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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