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Medeia de Warlikowsky

O Teatro LaMonnaie em Bruxelas apresentou este mês uma produção da ópera Medeia, com Libretto de Hoffmann e música de Cherubinni. Mas hoje em dia quem manda nas produções de ópera é o encenador, por isso falemos da encenação de Krzysztof Warlikowski.

O Teatro LaMonnaie em Bruxelas apresentou este mês uma produção da ópera Medeia, com Libretto de Hoffmann e música de Cherubinni. A orquestra (Ensemble Les Talents Lyriques) e o maestro (Christophe Rousset) deram uma interpretação irrepreensível e inspirada, sofisticada e actualizada, os cantores foram bem escolhidos e estiveram à altura do papel. Mas hoje em dia quem manda nas produções de ópera é o encenador, por isso falemos da encenação de Krzysztof Warlikowski. Tem uma longa carreira, com mais de 30 produções no seu repertório. Investigar o trabalho de Warlikowski no entanto revela algo de curioso. O dispositivo cénico é sempre o mesmo, fisicamente o mesmo em todas as produções do encenador, sem margem para erro: um palco dividido em dois (seis metros para a frente, seis metros para trás) com separadores de vidro de alto a baixo, o palco traseiro sobre estrado de 30 centímetros. O dispositivo é inteligente, com recurso a efeitos simples de luz permite utilizar o palco por detrás do vidro como uma plataforma giratória para diferentes ambientes e cenas paralelas à acção no palco dianteiro, não dá para entender é porque é que isso se aplica a todas as óperas encenadas por Warlikowski. Venham os libretos de Hoffmman, de Piave ou W. H. Auden, a música de Cherubinni, Verdi ou Stravinski, com Warlikowski teremos a certeza e o conforto de nunca experimentar outro mundo que não o do próprio encenador.

Medeia é uma mãe que mata os filhos. Mas com Warlikowsky transformou-se no epíteto do machismo, uma mulher bêbada que, coitada, mata os filhos por um qualquer desaire de paixão e vingança contra o ex-marido. Classificaria de estupidez se esta leitura do encenador obedecesse a algum processo de desconstrução simbólica, infelizmente resume-se apenas a uma total ignorância do que Medeia significa, simbólica e politicamente.

Warlikowski é o perfeito produto pós-moderno, a assunção plena do neo-liberalismo selvagem, da destruição de toda e qualquer especificidade cultural que ameace a sua hegemonia capitalista, a imposição de uma estética sem raiz e sem lugar que tanto faz ser apresentada na ópera de Paris como no cume do planalto Tibetano. Warlikowski não serve para nada, é um embuste. Pim!

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