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Extra-terrestres

Ou o presidente da Comissão assume por real o mundo imaginário que criou e nos transforma a todos em extra-terrestres dentro da nossa própria casa, ou é bom que pense em reformar-se.

Escrevo esta crónica antes de Durão Barroso proferir o seu discurso sobre o "Estado da União". Se vivêssemos tempos normais, poderíamos esperar muito de tais palavras. Como vivemos tempos difíceis, não. É estranho mas é assim que a Europa está hoje. Há, no entanto, uma antevisão que se pode fazer. O presidente da Comissão europeia afirmou no início da semana que "se há uma nova potência emergente no mundo, ela é a Europa". Esta afirmação é extraordinária. Ela coloca um problema sobre o sentido das proporções e outro sobre o sentido da realidade. Nem um nem outro beneficiam a imagem do chefe do executivo europeu. Numa altura em que as taxas de crescimento das economias europeias roçam a mediocridade, havendo mesmo países que se defrontam com sérios problemas de recessão, a "grande potência emergente" de Barroso é algo do domínio da ficção científica ou só plausível num mundo paralelo. Por cá, é uma afronta a quem paga a crise, a quem perdeu o emprego, a quem conta os tostões. O segundo problema é que as palavras de Barroso já de nada valem quando os líderes dos governos europeus se desdizem diariamente em declarações contraditórias e autofágicas entre si, alimentando a gula especulativa dos mercados financeiros. Barroso até pode pensar que as suas palavras criam uma realidade diferente. Na verdade, são mais algumas no meio da cacofonia que está a dar cabo da própria ideia de Europa.

Ignorar a realidade não costuma dar grande resultado em política. Já no início deste mês, em visita à Austrália, o Presidente da Comissão afastava um cenário de recessão na Europa. Ou entrou em negação e vive noutro mundo, ou acha que as declarações feitas nos antípodas têm efeitos milagrosos. Desde 2008, a Europa somou oito milhões de novos desempregados aos 16 milhões antes existentes. Em que é que as propostas de Bruxelas ajudam a contrariar este cenário quando o alfa e o ómega se chama austeridade e o resultado é a divergência entre Norte e Sul da União?

No ano passado, no primeiro discurso sobre o Estado da União, Barroso anunciou a possibilidade de emissão de obrigações de dívida europeia, os chamados eurobonds. Nem por isso ela se tornou realidade. Pelo contrário, continuam a ser redondamente rejeitadas por quem realmente dirige a União, a senhora Merkel. Barroso é conivente com as políticas de austeridade, tal como tem sido um "cordeirinho" com os mercados financeiros. Os amanhãs de Barroso são os de uma nova recessão. Ou o presidente da Comissão assume por real o mundo imaginário que criou e nos transforma a todos em extra-terrestres dentro da nossa própria casa, ou é bom que pense em reformar-se. No dia em que escrevo, Angela Merkel quaisquer novas medidas para estimular as economias da zona euro. A crise do euro é uma crise de política e de políticos. Barroso é fogo de artifício. Enquanto fala, Merkel trata dos estragos. Essa sim é uma artista.

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputado, dirigente do Bloco de Esquerda, jornalista.
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