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Passos Coelho foi mansinho com Jardim

A entrevista do primeiro-ministro à RTP foi totalmente contaminada pelo olhar do PSD. Os portugueses não deixarão de tirar conclusões.

Depois de um prolongado silêncio, Passos Coelho falou finalmente sobre os sucessivos buracos das contas públicas da Madeira. A entrevista na RTP1 estava rodeada de grandes expectativas, e não era para menos.

Esperava-se que Passos Coelho dissesse:

“O que se passou na Madeira nestes últimos seis anos é de uma incompetência e de uma irresponsabilidade que não tem limites”.

Mas o que disse foi:

“Aconteceram falhas do governo regional ao longo de vários anos.”

Esperava-se ainda que o líder do PSD afirmasse:

“Se o governo regional da Madeira continuar a esconder os números, de duas uma: ou temos que pedir mais dinheiro emprestado, ou temos que fazer mais sacrifícios.”

Mas disse apenas que esta questão causou “imenso desconforto ao líder do PSD” e “embaraço” ao partido, ao mesmo tempo que sublinhava que o buraco da Madeira tem um impacto “limitado” no défice de 2011.

Pensava-se que o primeiro-ministro fizesse o seguinte chamamento:

“Apelo ao governo regional da Madeira para que esclareça o que está a passar-se e para que comece rapidamente a mostrar o que vale e a pôr tudo em pratos limpos... e que deixe de empurrar as despesas com a barriga”.

Mas o que acabou por dizer foi:

“Teremos de rever os mecanismos de report, de inspecção e de responsabilização política”. (Desculpem-me o comentário, mas esta de “mecanismos de report” é de antologia.)

Esperava-se, ainda, que o principal responsável pelo governo de Portugal pusesse o dedo na ferida:

“Hoje é claro que o governo regional da Madeira mentiu ao país de forma deliberada e ainda quis fazer acreditar que a culpa era do governo central.”

Mas ficou-se apenas nisto:

“O governo vai certificar-se que aquilo que aconteceu não vai voltar a acontecer.”

Finalmente, havia quem tivesse esperanças que o ex-líder da oposição afirmasse:

“Aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa também têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus actos e pelas suas acções".

Mas o que disse foi bastante diferente:

“Estas situações não podem ficar sem consequências ao nível do apuramento de responsabilidades.”

Podem-me dizer: mas quem era o ingénuo que esperava que ele dissesse aquelas coisas todas?

Vou confessar uma coisa: aquelas frases foram realmente ditas por Passos Coelho, na campanha eleitoral e logo depois da vitória. Só que o alvo não era, é claro, Alberto João Jardim, pelo que limitei-me a fazer pequenas adaptações.

Pedro Passos Coelho bem pode dizer que a avaliação da real situação da Madeira “não será objecto de olhares partidários, mas de olhares de Estado”. Mas a sua entrevista de ontem foi totalmente contaminada pelo olhar do PSD.

Os portugueses não deixarão de tirar conclusões. Principalmente quando chegar a hora de o governo pedir novos e renovados sacrifícios.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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